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	<title>Mundo Mendes</title>
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	<pubDate>Thu, 14 May 2009 00:51:32 +0000</pubDate>
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		<title>Olhos de medo</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 19:25:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
E lá estava ele, sentado no chão da cozinha, ao lado daquele corpo sem vida que ficava cada vez mais e mais branco, enquanto o sangue viscoso escorria lentamente.
Mel, ele pensava. Quando era criança e ficava doente, sua mãe sempre lhe preparava um chá quente, tão quente que ele mal conseguia segurar a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>E lá estava ele, sentado no chão da cozinha, ao lado daquele corpo sem vida que ficava cada vez mais e mais branco, enquanto o sangue viscoso escorria lentamente.</p>
<p>Mel, ele pensava. Quando era criança e ficava doente, sua mãe sempre lhe preparava um chá quente, tão quente que ele mal conseguia segurar a caneca, adoçava o chá com mel e obrigava-o a beber. Detestava o chá, detestava quando aquilo descia queimando por sua garganta, mas ficava fascinado com a maneira como o mel escorria para dentro da caneca.</p>
<p>Aquele sangue no chão escorria como mel. Preguiçoso. Quase como se não quisesse escorrer. Não fosse o cheiro, ele podia jurar que aquele corpo tivera mel nas veias.</p>
<p>Entretanto, não havia dúvidas. O cheiro frio e ferruginoso penetrava em suas narinas e impregnava todo o ambiente. Sangue. Sangue se espalhando pelo chão, vagarosamente, como um ser vivo, como se tivesse o propósito de tomar posse de todo o chão da cozinha. É incrível a quantidade de sangue que há dentro de uma pessoa, ele pensava. Não uma pessoa. Não mais. Porém, aquele corpo sem vida já fora uma pessoa, até bem poucos minutos atrás.</p>
<p>&#8220;Mostre-me&#8221;, ele disse. Ela não entendeu. &#8220;Mostre-me&#8221;, ele repetiu. Assustada, ela correu e pegou o telefone, mas ele não esperou que terminasse de discar. Arrancou o fio da parede, e ela gritou. Detestava quando elas gritavam, detestava quando ficavam histéricas, mas ficava fascinado com a maneira como elas arregalavam os olhos, quando ele lhes mostrava a faca. E agora, lá estava ela em sua mão. Brilhando, refletindo seu rosto, como um desses espelhos de parque de diversão onde tudo reflete errado. Viu um sorriso na faca. Seu sorriso. Distorcido. Errado. Contudo, talvez a faca mostrasse como ele realmente era. Talvez todos os espelhos estivessem errados, exceto aqueles dos parques de diversão e as facas. Já não sabia em quais espelhos confiar.</p>
<p>&#8220;Mostre-me seu medo&#8221;, ele disse baixinho, mas ela não ouviu. Seus olhos castanhos estavam bem abertos, fixos na faca, e ele gostava daquilo. Gostava de ver os olhos delas, castanhos, verdes ou quem sabe azuis, bem abertos, fixos. Olhos de medo. O medo mostrava quem elas realmente eram, mostrava suas verdadeiras faces. Ele se deliciava com o medo. Era como tomar sorvete num dia quente ou chocolate num dia frio, ou quem sabe viajar para um país estrangeiro, onde tudo é novo e bonito. O medo mostrava que elas tinham algo a perder, e isso lhe causava uma sensação muito boa, como se, naquele momento, quando elas estavam reduzidas aos seus instintos mais primários e só havia o medo entre eles, ele detivesse todo o poder do mundo em suas mãos. O poder sobre a vida e a morte. Naquele momento, ele era o senhor de todo o universo, ele era deus, e ficava fascinado com a maneira como elas o temiam.</p>
<p>Ele murmurou palavras desconexas, extasiado pelo prazer daquele momento, tonto de satisfação, e não se importou que ela não lhe prestasse atenção, desde que continuasse olhando para a faca, que cada vez mais chegava perto de seus olhos. E então, ela gritou, como sempre acontecia, e ele cortou-lhe a garganta, como sempre acontecia quando elas gritavam.</p>
<p>E com isso o medo se foi e o encanto acabou, e lá estava ele, sentado no chão da cozinha, ao lado daquele corpo sem vida que ficava cada vez mais e mais pálido, com olhos lassos, olhos baços, cinzentos. Olhos de morte.</p>
<p>Olhou novamente para a faca, e viu seus próprios olhos refletidos entre as gotas de sangue que escorriam. Espelhos de parque de diversão que mudavam de lugar. Espelhos vermelhos, viscosos, escorrendo como mel. Não havia medo lá. Não havia nada. Só olhos vazios.</p>
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		<title>Em preto e branco</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 19:23:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
Estou numa festa. Numa daquelas festas de traje a rigor, onde as pessoas ricas bebem champanhe e discutem a arte ou as oscilações da bolsa de valores. O tipo de festa para a qual um cara como eu jamais seria convidado. Há um pianista tocando músicas clássicas, o tipo de música que todo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>Estou numa festa. Numa daquelas festas de traje a rigor, onde as pessoas ricas bebem champanhe e discutem a arte ou as oscilações da bolsa de valores. O tipo de festa para a qual um cara como eu jamais seria convidado. Há um pianista tocando músicas clássicas, o tipo de música que todo metido a erudito conhece ou diz conhecer, mas que nada significam para mim. Estou usando um smoking, o tipo de roupa que eu nunca usaria. As pessoas estão rindo e conversando à minha volta, embora eu não saiba o quê elas estão festejando ou porquê estou aqui. Sinto-me completamente deslocado, mas o que mais me intriga é o fato de alguém dar uma festa num lugar como este.</p>
<p>O salão de festas é muito amplo e cheio de esculturas terríveis, como corpos mutilados, monstros, demônios e coisas do gênero. O chão é coberto por um carpete vermelho escuro, que me lembra sangue coagulado, e as cortinas de veludo que cobrem as janelas são totalmente negras, como se imitassem uma noite sem lua. As paredes estão descoradas, e a tinta, que outrora provavelmente foi branca, está descascada em vários pontos, mostrando tijolos úmidos e cheios de musgo. No meio do teto há um enorme lustre de ferro cuja forma é como um milhão de garras voltadas para cima. Um cheiro frio de bolor impregna minhas narinas e não me sinto bem neste lugar. A atmosfera me sufoca, me oprime de modo que sinto uma angústia no peito, e a incômoda sensação de que todos à minha volta estão me observando.</p>
<p>As mulheres da festa riem escandalosamente enquanto os homens sorridentes cochicham palavras, provavelmente obscenas, em seus ouvidos. Alguns apontam casualmente em minha direção e riem ainda mais. Sim, agora sei que me observam. Meu único desejo é sair deste lugar, mas não consigo me lembrar de como foi que cheguei até aqui. Tento afrouxar o laço da minha gravata, mas não consigo, e isso faz com que alguns dos presentes riam às minhas custas.</p>
<p>Todos parecem conter uma enorme expectativa em relação a mim, e isso me confunde. De vez em quando alguém me olha fixamente, como se esperasse que eu falasse ou fizesse alguma coisa, ou como se eu tivesse respostas para perguntas que nem mesmo foram formuladas. Pessoas que nunca vi e que agem como se me conhecessem, tratam-me com reverência ao mesmo tempo em que zombam de mim. Devo estar ficando louco. Tenho muita sede e a maldita gravata está me sufocando.</p>
<p>Vários garçons distribuem taças de bebidas às pessoas, mas parecem evitar até mesmo passar perto de mim. Com um gesto eu chamo a atenção de um deles para que me traga alguma coisa para beber. Ele concorda com a cabeça e sai do salão por uma porta lateral. Uma porta que não estava lá alguns segundos atrás e que desaparece novamente assim que o garçom passa por ela! Sim, agora tenho certeza de que estou ficando louco!</p>
<p>As pessoas continuam rindo, conversando e eventualmente apontando para mim. Um homem de cabelos louros, que de alguma forma me parece familiar, aproxima-se de mim. Sinto então uma estranha sensação de déja vù. Sinto que já estive neste lugar e já falei com este homem, mas não me lembro quando, ou em quais circunstâncias isso aconteceu.</p>
<p>- Que lugar é este? - pergunto para ele, sem tentar disfarçar a minha confusão.</p>
<p>Ele sorri e fala de modo afetado, alto o suficiente para que as pessoas à nossa volta possam ouvir.</p>
<p>- Que lugar é este? Então o nosso anfitrião não reconhece a própria casa? Meu amigo, sua festa está ótima! Que lugar é este, com efeito!</p>
<p>O louro afasta-se rindo e engasgando com o champanhe que estava bebendo. Todos gargalham vulgarmente e eu sinto como se o chão fosse abrir sob meus pés. Minha casa, ele disse, minha festa, mas isso não pode ser verdade!</p>
<p>Não posso imaginar quem são essas pessoas e muito menos como esta poderia ser minha casa. Sinto-me cansado e olho à minha volta a procura de um lugar onde possa me sentar, mas não encontro nenhum. Não existem móveis aqui, só as hediondas esculturas que causam verdadeiro fascínio nos presentes nessa festa de dementes. Eu caminho até uma das esculturas e percebo com horror que, gravado numa placa de metal presa ao pedestal de mármore, está o meu nome.</p>
<p>O garçom volta, e ao invés de algo para beber, me entrega um envelope grande e pardo, endereçado a mim. Abro o envelope e dentro dele encontro uma fotografia. É uma foto antiga, em preto e branco, e ela me faz lembrar nitidamente de uma ocasião que aconteceu cerca de vinte atrás, quando eu ainda era uma criança.</p>
<p>Certo dia, quando eu voltava da escola, um cão me atacou. Não era um cão muito grande, mas me assustou um bocado quando mordeu minha perna, rasgando minha calça. Corri, e o cão me perseguiu com uma obstinação cega. Cheguei ao portão velho e enferrujado da minha casa, porém este estava trancado. Desesperado, tentei galgá-lo, mas o cão mordeu novamente a minha calça rasgada e começou a me puxar para baixo. Tentei escapar de todas as maneiras, e então uma das barras de ferro do portão a que eu me agarrava tentando subir cedeu sob o meu peso e soltou-se, ficando em minhas mãos. O medo, o terror irracional de ser atacado por aquele animal tomou conta de mim. Sem ao menos pensar no que estava fazendo, golpeei-o com toda a força que o pânico pode produzir em um garoto de dez anos de idade. Atingi-o na base do pescoço, que foi partido num estalo. O cão caiu com um único ganido e começou a se debater, com a vida esvaindo-se de seu corpo. Em poucos segundos estava inerte, com os olhos vidrados e com um filete de sangue escorrendo pelo focinho.</p>
<p>Lembro-me do incidente, mas não da foto. Não havia ninguém comigo na ocasião e o único que viu o cão depois de morto foi meu pai, quando se livrou do corpo, mas não acredito que o velho teria o trabalho de fotografar o cachorro morto. Por que alguém faria uma coisa dessas, afinal?</p>
<p>Uma mulher ruiva, pálida e com olhos verdes muito brilhantes, aproxima-se e olha a foto com interesse.</p>
<p>- Ótimo trabalho! - ela sussurra em meu ouvido.</p>
<p>- Não fui eu quem tirou esta fotografia! - digo, indignado.</p>
<p>- A foto não, o cão - diz ela, sorrindo - Realmente, você fez um ótimo trabalho com ele. Alguns diriam que não foi uma de suas melhores obras, e alguns diriam até que foi simples demais, mas devido às circunstâncias, devido à espontaneidade, eu o considero como um dos seus melhores trabalhos! Ainda mais sendo o primeiro!</p>
<p>Ela toma a fotografia de minhas mãos e mostra aos outros presentes. Eles murmuram entre si, com grande admiração. Então começam a me aplaudir, alguns assobiam, outros apertam minha mão e dão tapinhas em minhas costas, cumprimentando-me. As pessoas se aglomeram ao meu redor, querendo me tocar, tratando-me como se eu fosse uma espécie de herói ou ídolo. Aquilo me causa uma profunda repugnância e, horrorizado, tento fugir daquelas pessoas, mas elas me cercam por todos os lados. O homem louro aparece de repente em meio à multidão e me segura pelos ombros.</p>
<p>- Ah, já vai? Tão cedo? Não antes de nos mostrar o seu trabalho mais importante, aquele para o qual você vem se preparando há anos, a sua obra-prima!- diz ele apontando para o envelope em minhas mãos - Mostre-nos do que é capaz, Modelador da Carne!</p>
<p>A fotografia que tiro do envelope, me choca tremendamente. É uma foto em preto e branco de uma mulher, caída no chão, nua. Há sangue por toda parte. O abdome foi aberto desde a virilha até o plexo solar e suas entranhas foram cuidadosamente retiradas e colocadas ao seu lado. Os braços e pernas foram quebrados em vários lugares e fazem ângulos impossíveis com o corpo. Os cantos dos lábios foram cortados até às orelhas, os dentes foram quebrados e a língua foi fendida ao meio. Seus olhos foram arrancados e também colocados cuidadosamente ao lado do corpo.</p>
<p>Eu levo alguns segundos para perceber que a mulher da foto é a minha esposa.</p>
<p>A ruiva novamente toma a foto das minhas mãos e a entrega às pessoas que se acotovelam à minha volta. Novamente elas me aplaudem, agora freneticamente. Algumas pessoas gritam o meu nome, outras me colocam sobre os ombros e carregam-me pelo salão, como se eu estivesse num desfile triunfal. Não consigo me conter e começo a chorar.</p>
<p>Minha esposa está morta! E eles dizem que fui eu quem a matou!</p>
<p>- NÃO! - eu grito - NÃO FUI EU! EU NÃO FIZ AQUILO!</p>
<p>O louro sorri mostrando dentes amarelados.</p>
<p>- Não, meu amigo, não fez. - ele diz calmamente - Ainda não.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>Acordo sobressaltado, com o corpo banhado em suor. Ao meu lado minha esposa dorme profundamente. Tiro a fronha do travesseiro e enxugo meu rosto com o ela. Minha boca está seca, e então tomo o copo de água que havia deixado sobre o criado-mudo. Um sonho, eu penso, o mesmo sonho recorrente outra vez.</p>
<p>Deito de lado. Olho o relógio. Passa das três horas da madrugada. Sei que não vou conseguir dormir de novo. Deito de costas e olho o teto por um longo tempo. Me viro e olho para a minha esposa, tão tranqüila em seu sono que parece estar sorrindo. Linda. Ela é linda. Eu me levanto com um suspiro.</p>
<p>Caminhando cegamente pela casa no meio da noite, percebo que cheguei à garagem, onde pego as ferramentas necessárias para concluir meu trabalho, já que não posso mais dormir. Pego as fotografias que mantenho escondidas, longe dos olhos curiosos da minha esposa. São verdadeiras obras de arte, mas estão incompletas. Ainda falta-lhes algo que não consigo definir, mas sei que ainda tenho muito a aprender.</p>
<p>É engraçado, pois sempre ouvi dizer que os sonhos não são coloridos, mas os meus são. Só as fotos neles é que são em preto e branco. As fotos dos meus sonhos, e as fotos que tiro quando estou desperto, produzindo a minha arte, quando me sinto vivo, mais vivo do que nunca.</p>
<p>As minhas fotos são em preto e branco, e talvez seja isso que deva mudar. Talvez seja esse o detalhe que vai me transformar num artista completo, pois eu gosto muito das cores.</p>
<p>Sobretudo do vermelho.</p>
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		<title>Predadores</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 19:22:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
- Eu preciso de você - ela disse olhando nos meus olhos e em seguida mordeu o lábio inferior.
Fiquei constrangido com aquela declaração e olhei para as pessoas à nossa volta, no bar onde bebíamos tranqüilamente. Ninguém parecia nos notar, e se notavam, não pareciam se importar conosco. Na verdade ninguém se importava [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>- Eu preciso de você - ela disse olhando nos meus olhos e em seguida mordeu o lábio inferior.</p>
<p>Fiquei constrangido com aquela declaração e olhei para as pessoas à nossa volta, no bar onde bebíamos tranqüilamente. Ninguém parecia nos notar, e se notavam, não pareciam se importar conosco. Na verdade ninguém se importava com nada ou ninguém nesta imensa e louca cidade.</p>
<p>Tanto melhor que seja assim - pensei e sorri para ela, erguendo a taça de vinho em um brinde - Eu também preciso de você - falei, pensando nas implicações daquela frase e sorvendo a bebida que deixava um gosto acre em minha boca.</p>
<p>Eu sentia como se já a conhecesse profundamente, mesmo estando ali a apenas pouco mais de uma hora. Havia algo familiar em sua voz rouca, em sua pele de uma brancura incomum, em seus olhos escuros, tudo enfim. Algo que eu conhecia muito bem, mas fazia questão de manter escondido de todos, inclusive de mim mesmo. Então eu senti medo, dela e de mim. Medo do mal que causaríamos, um ao outro.</p>
<p>Entretanto, a beleza daquela mulher fazia com que esquecesse quem eu realmente era ou quem ela poderia ser. Fazia eu me sentir leve, como se me importasse com coisas como carinho, felicidade e amor. Estes sentimentos eram novos e maravilhosos para mim, portanto tentei desesperadamente agarrar-me à suposição de que aquela mulher não era o que eu pensava que fosse. Eu sabia que o que quer que fosse acontecer entre nós, a esta altura já era inevitável e deixei que o destino decidisse por mim.</p>
<p>Conversamos muito. Ela era estrangeira e tinha um sotaque difícil de identificar. Conhecia muito sobre muitas coisas, mas sempre deixava que eu conduzisse nossa conversa. Convidei-a para ir a um lugar mais calmo e ela me respondeu com um sorriso muito amplo, nem inocente, nem malicioso. Então eu pude jurar que seus olhos brilharam - um lampejo frio de luz vermelha.</p>
<p>São as luzes do bar - tentei convencer a mim mesmo - São só as luzes refletindo em seus olhos.</p>
<p>Durante o caminho até meu apartamento, continuamos nossa conversa, até um momento em que ela envolveu meu braço com os seus e recostou a cabeça em meu ombro. Naquele momento senti que poderia deixar para trás todos os meus problemas, que poderia começar de novo a partir daquele ponto, junto daquela mulher, compartilhando uma vida.</p>
<p>Poderia ter mudado a minha natureza, se ela também mudasse a dela.</p>
<p>Chegando ao meu apartamento, abri a porta e entrei. Ela permaneceu do lado de fora.</p>
<p>- Não vai me convidar para entrar? - ela perguntou sorrindo.</p>
<p>- Oh, desculpe, é claro, entre, por favor.- eu disse, embaraçado pela minha falta de educação - Desculpe a minha indelicadeza. Entre, por favor.</p>
<p>Ela sorriu outra vez e eu me senti extremamente triste, pelo que estava para acontecer. Fechei a porta enquanto ela se sentava no sofá.</p>
<p>- Quer mais um drink? - perguntei. Ela balançou a cabeça em negativa e estendeu os braços, para que eu fosse até ela.</p>
<p>- Eu preciso muito de você. - ela disse - De verdade. Venha.</p>
<p>Sentei-me ao seu lado, deixando que ela pensasse que tinha o controle da situação. Mesmo naquele momento de extremo perigo para mim, eu me mantinha alheio aos verdadeiros motivos que me levaram a convidá-la ao meu apartamento. Eu só conseguia pensar em paixão e vida, em carinho e cumplicidade.</p>
<p>Ela beijou-me na boca, um beijo longo e apaixonado. Eu correspondi concluindo que, mesmo sendo frios, seus lábios eram um refúgio aconchegante. Ela então afastou minha cabeça para o lado e começou a me beijar no pescoço. Um arrepio percorreu minha espinha e eu não pude conter um gemido de prazer. Quando senti a mordida, todas as minhas esperanças e sonhos ruíram e eu só consegui lamentar, por tudo o que havia perdido, sem ao menos conquistar.</p>
<p>Segurei os pulsos dela com força e deixei que, por um breve momento, ela continuasse a sugar o meu sangue.</p>
<p>Quando se deu conta de que eu não era humano seu rosto tomou uma forma angulosa, sua boca não era mais do que um risco vermelho em meio a brancura de sua pele. Meu sangue escorria de seu queixo.</p>
<p>Toda beleza a havia deixado e agora ela não era mais aquela linda mulher com quem eu gostaria de estar. Agora, para qualquer ser humano, ela seria um monstro, um ser saído dos piores pesadelos imagináveis. Uma vampira.</p>
<p>Para mim, ela era apenas comida.</p>
<p>Eu lhe mostrei minha verdadeira forma e uma onda de terror a atingiu. Seus olhos se arregalaram e ela tentou furiosamente escapar, mas eu a mantinha firmemente presa pelos pulsos.</p>
<p>Tentou gritar, então apertei seu pescoço com uma das mãos, cravando minhas garras profundamente, e puxei com violência, arrancando parte de sua traquéia e cordas vocais.</p>
<p>Ela tinha pouco sangue, sinal que não vinha se alimentando bem.</p>
<p>Levei o pedaço de carne até a boca e mastiguei sem pressa, enquanto o ar que saía pelo buraco da sua garganta fazia um barulho estranho, com o esforço que ela fazia para gritar. Seu rosto era uma máscara de puro pânico e sua boca tentava em vão articular palavras, provavelmente de súplica.</p>
<p>Segurei firme o seu pescoço com uma mão, enquanto que com a outra torcia e puxava seu braço, num esforço para quebrar seus ossos. Com um último puxão arranquei seu braço na altura do ombro. Ela perdeu os sentidos, mais pelo choque de ver o braço arrancado do que de dor. Deixei que ela escorregasse até o chão.</p>
<p>Ah, sim, eu sou carnívoro, sou um predador. Mas não um predador comum, nada disso. Há eras atrás eu fui amaldiçoado e minha existência transformada numa agonia terrível. Para continuar existindo, preciso cometer esses atos de violência, que para muitos pode parecer uma monstruosidade. Desde que fui transformado no que sou hoje, só caço vampiros. Não sei exatamente porquê faço isso. Talvez seja o monstro em mim, clamando pela vida de outros monstros. Talvez seja só ecologia.</p>
<p>Sou um predador de predadores. Sou a grande criatura da noite. Sou o topo da cadeia alimentar.</p>
<p>E estou sozinho.</p>
<p>Algumas vezes eu gostaria de ser um simples ser humano, com suas paixões, suas fraquezas, com toda a capacidade de amar que estes ridículos seres possuem e que a mim foi negada.</p>
<p>Peguei o corpo desfalecido e coloquei-o dentro de um pequeno caixão, escondido sob a mesa de centro da sala.</p>
<p>De um vaso da cozinha, trouxe uma rosa branca que coloquei sobre o caixão, não antes de sentir o seu suave perfume. Na rosa eu havia preparado um ritual antigo e poderoso que impediria que ela escapasse de lá quando eu não estivesse em casa. Infelizmente lhe causaria dor e agonia terríveis, mas não havia nada que eu pudesse fazer a esse respeito.</p>
<p>Era uma lástima que ela fosse tão bonita, um verdadeiro desperdício.</p>
<p>Lamentei por não podermos continuar fingindo um para o outro, e para nós mesmos.</p>
<p>Era pena que, já que não possuíamos vida, não pudéssemos sequer imitá-la.</p>
<p>Senti compaixão por ela, mas o sentimento foi logo abandonado quando imaginei que ela não sentiria nenhuma compaixão, se eu fosse a sua vítima. Levei a mão ao pescoço. Já estava quase regenerado.</p>
<p>- Sou um predador - lembrei.</p>
<p>E continuei a comer com prazer o braço fino e delicado que trazia em minha mão.</p>
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		<title>MCC versão 1.3 Beta</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:51:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
Era por volta de uma da madrugada quando Kátia Duran chegou ao Santeria, acompanhada por um jovem vestido num terno marrom impecável. O bar estava cheio àquela hora, com a nata do submundo, como de costume. Havia motoqueiros barulhentos, bebendo e gritando uns com os outros, tipos suspeitos procurando por alguém que os [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>Era por volta de uma da madrugada quando Kátia Duran chegou ao Santeria, acompanhada por um jovem vestido num terno marrom impecável. O bar estava cheio àquela hora, com a nata do submundo, como de costume. Havia motoqueiros barulhentos, bebendo e gritando uns com os outros, tipos suspeitos procurando por alguém que os contratasse para algum trabalho sujo, vendedores de todos os tipos de coisas ilícitas negociando calorosamente com seus fregueses e montes e montes de punks pulando e gritando ao som de alguma banda de rock alternativo.</p>
<p>A banda daquela semana era o Screams &#038; Whispers e apesar dos músicos serem bons, Kátia achou sofrível a performance do vocalista de ar andrógino que alternava gritos lancinantes e sussurros, ao microfone.</p>
<p>A garota caminhou até o balcão, seguida pelo rapaz que a acompanhava.</p>
<p>- Chango! Chango! - ela teve que gritar para que o barman a escutasse em meio ao barulho do bar.</p>
<p>- Hola, Kátia. Que passa, ese? - disse o barman, enquanto lhe servia um copo de tequila.</p>
<p>A garota levantou o copo como num brinde, bebeu de um gole, bateu o copo no balcão e limpou a boca com as costas da mão. O barman abriu um sorriso de dentes metálicos e pontiagudos.</p>
<p>- Procura por Sal? Ele está esperando, ese! - disse, apontando para uma mesa no fundo do bar onde havia um homem parcialmente oculto pela sombra de uma escada que levava ao andar superior, onde outros tipos de diversão eram praticados.</p>
<p>- O que ele fez nos dentes? - perguntou o rapaz, gritando para ser ouvido, enquanto os dois dirigiam-se para o fundo do bar.</p>
<p>- Chango? Alguns anos atrás, alguém quebrou os dentes dele. Ele jurou que ninguém os quebraria novamente.</p>
<p>- Nenhuma clínica corporativa colocaria dentes metálicos num homem!</p>
<p>- Clínica corporativa? Ha! Em que mundo você vive, cara? - perguntou a garota, balançando a cabeça em negativa. O rapaz pensou em responder qualquer coisa, mas ela já não lhe prestava atenção.</p>
<p>- Sal? - perguntou a garota quando estava próxima o suficiente para que o homem a ouvisse. A mesa dele estava afastada o suficiente da algazarra para que mantivessem uma conversa num tom confortável.</p>
<p>O homem mantinha inclinada a cadeira na qual estava sentado, apoiada na parede e nas pernas de trás. A cabeça estava recostada na parede e os olhos fechados. Quando ouviu a garota, com um movimento suave do corpo, colocou lentamente a cadeira na posição normal e saiu da sombra da escada.</p>
<p>O rosto estava pálido e molhado de suor, assim como os cabelos. Tinha uma garrafa de aguardente em uma mão e um cigarro quase no filtro na outra. Um delicado cabo de fibra ótica saía de sua têmpora e estava ligado a um computador portátil, em cima da mesa. Ele vestia terno e gravata pretos e a camisa branca tinha uma mancha vermelho-escura na altura do peito.</p>
<p>- Você demorou - disse ele, enquanto desconectava o cabo de sua têmpora.</p>
<p>- Sal! O que aconteceu ? Você está um lixo!</p>
<p>- Também te amo, Ká.</p>
<p>Sal jogou o toco de cigarro no chão e tirou outro do maço de Marlboro que estava no bolso. O papel da embalagem, normalmente vermelho e branco, tinha manchas escuras.</p>
<p>- Quem é o babaca? - perguntou, depois de acender um cigarro manchado de sangue.</p>
<p>- É jornalista. Famoso. Disse alguma coisa sobre um amigo dele ter te contratado. Salvattore Petri, Fábio Costa. Fábio Costa, Salvattore Petri. Sal, tem certeza que você está bem? </p>
<p>- Olá Sr. Petri. Aqui está minha identificação - disse Fábio mostrando um cartão plástico da World News Service, com seu nome e um holograma do seu rosto gravados nele - Gostaria de falar com o senhor, mas talvez esse não seja o momento adequado. Vejo que o senhor está ferido! Eu, eu posso voltar depois&#8230;</p>
<p>- Não Sr. Jornalista, sente-se - disse Salvattore, apontando uma cadeira - Kátia, eu preciso de hardware, e é meio urgente.</p>
<p>- Sal, você vai ou não vai me contar o que aconteceu? - disse a garota ao sentar-se - Você está sangrando, cara!</p>
<p>Sal colocou a garrafa sobre a mesa e fez um carinho nos cabelos da garota. Olhou nos olhos de Fábio enquanto ele sentava. O rapaz parecia um bocado perturbado pela visão de sangue. Sal não gostava de gente que se perturbava facilmente, mas esse era só mais um motivo para não gostar do jornalista. Também odiava tudo o que o rapaz representava. A desigualdade social promovida pelas corporações, a mentira e alienação dos meios de comunicação, a manipulação das massas. Odiava os ricos, enfim. Entretanto, sentia um pouco de pena do rapaz, porque assim tão sensível, ele não ia durar muito tempo no mundo real, não ia durar muito tempo em CyberSampa.</p>
<p>Sal sempre vivera nas ruas e aprendera tudo sobre o submundo da pior maneira, da única maneira possível. Sobrevivendo. E o que aprendera de melhor era como se esconder na Rede, como fugir de seus problemas para o único lugar justo em todo o mundo, pelo menos para ele. Um lugar onde Sal tinha poderes quase ilimitados, e era como um pequeno deus. Um hacker, um invasor de computadores. E dos bons.</p>
<p>- Você conhecia Jean-Paul Duchat, Sr. Jornalista? Eram amigos?</p>
<p>- Sim, pode-se dizer que somos amigos.</p>
<p>- Meus pêsames, então. Duchat está morto.</p>
<p>- Que diabo está acontecendo, Sal? - disse a garota.</p>
<p>- Preciso de hardware, Ká. Um novo coração blindado, algumas costelas e pele de cultura, e também uma boa dose de nanorobôs.</p>
<p>- Isso vai ficar caro, mas posso conseguir. Quer endorfina para a dor? - disse a garota tirando uma seringa de ar comprimido de dentro de um bolso do casaco de couro sintético.</p>
<p>- Enquanto eu sentir dor, Ká, sei que ainda estou vivo - disse Sal - e sei que ainda sou humano.</p>
<p>- Quanto tempo na bateria de emergência? Digo, para o coração.</p>
<p>- Três horas.</p>
<p>- Dá tempo. Vamos.</p>
<p>- Ei, espera aí! Ainda eu estou bebendo à memória de Jean-Paul Duchat e preciso fechar um negócio com o meu amigo, o Sr. Jornalista.</p>
<p>- O que você tem para mim? - perguntou Fábio, tentando esconder a insegurança de sua voz.</p>
<p>- Hardware e Software. &#8220;O&#8221; Hardware e &#8220;o&#8221; software. Aquilo que todas as corporações estiveram pesquisando nos últimos dez anos e não chegaram a lugar algum. Todas exceto uma.</p>
<p>- Sobre qual pesquisa, exatamente, estamos falando?</p>
<p>- Você sabe como funciona um computador, amigo? Tudo se resume numa só coisa: Computadores executam ordens. Alguns executam bem, outros nem tanto, mas eles têm que executar ordens. Foram criados e programados para isso. Não podem ir contra a sua natureza, contra a sua programação. Mesmo os computadores dotados de inteligência artificial têm que seguir sua programação, ainda que entrem em conflito com os seus interesses e sua consciência. Por isso, computadores são os escravos perfeitos. Nunca questionam, nunca reclamam, são completamente controlados e executam apenas aquilo que os programadores ordenam. Eu sei muito bem disso. Sou um programador.</p>
<p>- Sim, eu sei, Duchat me falou.</p>
<p>- Falou é? Pobre Duchat. Morreu sem ao menos saber o que o atingiu. Quer saber uma coisa engraçada a respeito da vida? A vida sempre acaba. As pessoas sempre morrem. É como naqueles video-games antigos em que cada vez que você ganhava, a máquina aumentava a velocidade do jogo até que fosse impossível ganhar. No fim, todo mundo morre. E quer saber uma coisa engraçada a respeito da morte? Não importa se você morre por dois dólares da Microsoft ou por dois milhões de yenes da Sony. A morte não é sensível a diferenças monetárias. Mas eu sou. Duchat morreu por uma coisa que vale muito dinheiro, e estou aqui, todo estropiado. E eu quero dinheiro, muito dinheiro.</p>
<p>- Antes de discutirmos qualquer quantia monetária, eu gostaria de saber o quê, exatamente, você tem pra mim.</p>
<p>Kátia ouvia a conversa entre os dois homens com interesse. Iria cobrar pelo equipamento que venderia a Sal de acordo com a quantia que ele conseguisse arrancar do jornalista, mas o jovem estava recobrando a autoconfiança e parecia não estar disposto a pagar nada além do estritamente razoável, o que quer que isso significasse para ele.</p>
<p>Salvattore deu uma longa tragada em seu cigarro e Kátia notou um espasmo quase que imperceptível em seu olho esquerdo. &#8220;Deve estar sentindo muita dor&#8221; - a garota pensava - &#8220;Se continuar assim pode entrar em choque a qualquer momento, e aí, era uma vez a grana&#8221;.</p>
<p>Sal olhava diretamente para o jornalista, que agora devolvia o olhar.</p>
<p>- Bem, como ia dizendo, controle é a tecnologia final. As corporações controlam os computadores, que controlam as corporações. Todo mundo que usa um computador está preso a esse círculo vicioso. Porém, algumas pessoas privilegiadas ainda se mantém à margem disso tudo. Eu, por exemplo, sou uma delas. Não sou filiado a nenhuma corporação, embora às vezes trabalhe como free-lancer para algumas. Muita gente faz esse tipo de coisa, mas as corporações não acham que isso seja razoável. Segundo a maneira de pensar dos executivos da alta roda, ninguém deveria ter liberdade de pensamento, ninguém deveria ter liberdade de escolha. Esses homens acham que só as corporações podem decidir o que é melhor para mim e para você. E nós deveríamos aceitar isso sem ao menos pestanejar. Quem não aceitar de bom grado o controle exercido pelas corporações, deve ser forçado a isso. Durante muito tempo, eles sonharam em controlar as pessoas da mesma forma que controlam os computadores. E agora, conseguiram projetar o instrumento final de controle.</p>
<p>Salvattore tirou do bolso um pequeno círculo de plástico amarelo, do tamanho de uma moeda, e jogou-o em cima da mesa.</p>
<p>- MCC. Módulo de Controle Cerebral Versão 1.3 Beta. Com os cumprimentos da Taniguchi-Hernandez Technologies. Quero dez milhões de Sony&#8217;s por ele. O dinheiro deve ser distribuído entre vinte contas na rede. Se você aceitar, te dou os números e códigos de acesso.</p>
<p>- Dez milhões de Sony&#8217;s! - exclamou Kátia, e assobiou.</p>
<p>- Já ouvi falar sobre o MCC, sr. Petri, mas achava que era uma lenda - disse Fábio, branco como leite. Agora o rapaz estava visivelmente perturbado.</p>
<p>- É. A Taniguchi-Hernandez preferiu que isso ficasse encoberto, mas Duchat descobriu tudo, com a ajuda de alguém de dentro. Ele decidiu roubar a tecnologia e vendê-la pelo melhor preço. Essa foi a invasão mais difícil que pratiquei em toda a minha vida, e a mais arriscada também. Não bastava roubar apenas o software. Tivemos que invadir fisicamente a sede da Taniguchi e Duchat morreu durante a fuga. Eu também teria morrido, não fosse por meu coração blindado e os nanorobôs de regeneração. Esse foi um trabalho digno da minha aposentadoria, e  você, sr. Jornalista, deve estar se perguntando por quantos milhões irá vender essa maravilha, quando uma reportagem sua for ao ar, explicando o quê esta tecnologia hipotética é capaz de fazer. Quem sabe a própria Sony não mostre interesse?</p>
<p>- Por que você mesmo não vende para eles? Por que precisa de mim?</p>
<p>- Oh, eu não! Eu nunca poderia. Sou um rato, compreende? Vivo no submundo, vivo nas ruas, nos esgotos e nos lugares mais obscuros da rede. Nenhuma grande corporação compraria isto de mim, pois nunca teria certeza de que eu não fiz uma cópia ou adulterei o conteúdo. Provavelmente eles me matariam e ficariam com o MCC de qualquer maneira. Mas você é diferente. Você é respeitável, possui os meios de comunicação à sua disposição, você é o Senhor Jornalista! Você pode jogar uma isca e fisgar peixes grandes.</p>
<p>- Mas não tenho dez milhões de Sony&#8217;s!</p>
<p>- Imaginei que não tivesse. Vamos fazer o seguinte, eu deixo o MCC com você em consignação. Você o vende por quanto quiser, e só depois, me paga os dez milhões. Combinado?</p>
<p>- Como sabe que eu vou te pagar, depois que vender a mercadoria? Como pode ter tanta certeza sobre a minha honestidade?</p>
<p>- Ah, você vai me pagar. A menos que queira fazer companhia para seu amigo Duchat. Nem todo dinheiro do mundo o colocaria a salvo de mim, sr. Jornalista, porque eu não me importo nem um pouco sobre como a sua morte iria repercutir nos meios de comunicação.</p>
<p>- Temos um acordo então - disse o jornalista, estendendo a mão para um cumprimento.</p>
<p>Sal apertou-lhe a mão, mas quando foi soltar, percebeu que o outro continuava segurando. Os olhos do rapaz ficaram vidrados e ele tirou uma pistola disruptora de dentro do paletó. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta e Sal não podia acreditar no que estava vendo. Aquele homem iria atirar nele! Por quê? Será que era estúpido o bastante para imaginar que o disco de plástico que estava sobre a mesa tinha algum valor sem os dados que Sal implantara em seu próprio cérebro, momentos antes daquele encontro? Num lampejo, entendeu a situação. Atirou-se ao chão, evitando o tiro silencioso por um triz. O rapaz, com os olhos de um zumbi, mirou novamente. Caído ao chão e preso que estava por aquela mão de força descomunal - aparentemente adquirida nos últimos segundos - Sal não poderia escapar de um novo tiro. De repente, a cabeça do jornalista explodiu e o corpo caiu inerte, ao lado de Sal.</p>
<p>- MERDA! VOCÊ TINHA QUE ATIRAR NA CABEÇA? - gritou ele para Kátia, enquanto se esforçava para soltar-se do cadáver.</p>
<p>Os freqüentadores pararam por um instante para ver a agitação no fundo do bar, mas logo voltaram a cuidar de suas próprias vidas.</p>
<p>- Agora a unidade MCC implantada nesse idiota está danificada! - continuou Sal - Podia ser um modelo diferente! Uma versão atualizada! </p>
<p>- Oh, me desculpe por ter salvo a sua vida! - disse a garota, forçando a voz para que parecesse afetada. Ela abaixou-se e encostou a mão levemente no ferimento do peito de Sal. Seus dedos ficaram molhados de sangue fresco.</p>
<p>- Seus ferimentos abriram. Precisamos ser rápidos agora.</p>
<p>Chango havia saído de trás do balcão e estava em pé ao lado deles, olhando o cadáver em seus últimos espasmos. Sangue e miolos escorriam do que restava de sua cabeça.</p>
<p>- Quem te quer muerto desta vez, güey?</p>
<p>- Taniguchi-Hernandez, eu acho - disse Sal, enquanto levantava vagarosamente e pegava a unidade MCC e seu computador de cima da mesa.</p>
<p>- E quanto eles estão pagando, ese?</p>
<p>- Muito mais do que eu vou pagar para você se livrar do corpo - disse Sal, sorrindo com dificuldade por causa da dor que sentia.</p>
<p>- Dinheiro não é tudo, vato.</p>
<p>- Não. Definitivamente, dinheiro não é tudo.</p>
<p>- Hasta la vista! - disse Chango que começava a arrastar o cadáver pelos braços, enquanto Salvattore e Kátia já saíam pela porta dos fundos do bar.</p>
<p>- E agora? - disse a garota, quando chegaram à rua.</p>
<p>- Hardware. E rápido. E também uma daquelas suas injeções para a dor. Aquele lance de sentir dor para sentir-me humano tem limite, sabia?</p>
<p>- Sim, mas e agora? - disse a garota enquanto aplicava uma dose de endorfinas em Sal - Para quem vai vender?</p>
<p>- Não sei. Talvez eu venda para alguma inteligência artificial. Pelo menos elas não vão tentar me matar por isso. Sabe, eu menti quando disse que as IAs eram controladas pelas corporações. Elas podem fazer o que bem entenderem, inclusive transferir dinheiro de várias contas, sem que ninguém note. O problema é fazê-las entender o motivo pelo qual preciso do dinheiro e porque isso deve ser feito às escondidas, já que a realidade virtual não tem uma interação direta com a vida real, do ponto de vista delas. Para as inteligências artificiais, o dinheiro não é nada além de dados e quantidades abstratas de comparação, mas com o MCC, a coisa muda de figura. Elas estariam acessando o nosso mundo, poderiam usar um ser humano como periférico de entrada na nossa realidade.</p>
<p>- Você ficou louco? Vai dar aos computadores o controle sobre seres humanos?</p>
<p>- E por que não? É menos imoral que humanos tenham controle absoluto sobre outros humanos? O que você acha que a Taniguchi-Hernandez faria com o MCC? Você viu o que eles acabaram de fazer com aquele pobre coitado! Eu não faço as regras desse jogo, Ká, apenas tento me manter vivo da melhor maneira possível. Não existe um ganhador no final, apenas sobreviventes.</p>
<p>- A vida não é um jogo! - protestou a garota - Quando é que você vai compreender isso?</p>
<p>Sal não respondeu. A dor ainda o incomodava e ele não estava com ânimo para discutir com Kátia. Enquanto se encaminhavam para a clínica que trocaria seu coração artificial, Sal ficou pensando no absurdo mundo em que vivia. Como poderia não ser um jogo? Mate para não morrer, roube para poder comer. Encontre as brechas e falhas no sistema ou então seja engolido pelas grandes engrenagens da máquina. Tome para si tudo o quanto puder, ou então aceite as migalhas e restos oferecidos pelas corporações. Seja um renegado, mas que esse seja o motivo de seu orgulho. Seja um pária, mas seja livre, e acima de tudo, continue vivo.</p>
<p>&#8220;Sim, a vida é um grande jogo sujo, afinal&#8221; - ele pensava - &#8220;E queira ou não, Salvattore Petri é um jogador&#8221;. Sendo assim, não lhe restava muita escolha a não ser continuar jogando. E sobrevivendo.</p>
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		<title>Sabrina</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:49:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
Sabrina estava sentada numa pedra, desenhando círculos na areia com os pés descalços. O mar à sua frente estava calmo e uma leve brisa fazia com que seus cabelos caíssem em seu rosto.
Ele estava atrasado, como sempre. Ela não se lembrava de uma única vez em que ele tivesse sido pontual, mas isso [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>Sabrina estava sentada numa pedra, desenhando círculos na areia com os pés descalços. O mar à sua frente estava calmo e uma leve brisa fazia com que seus cabelos caíssem em seu rosto.</p>
<p>Ele estava atrasado, como sempre. Ela não se lembrava de uma única vez em que ele tivesse sido pontual, mas isso já não importava. </p>
<p>Ficou pensando na maneira como diria a ele, na maneira menos traumática de dizer que já não o amava mais.</p>
<p>Uma lágrima correu pelo seu rosto, não porque seria um momento triste, mas porque queria amá-lo, queria poder controlar seus sentimentos, queria poder ficar com ele para sempre, mas não podia.</p>
<p>&#8220;Não vou chorar na frente dele&#8221; - decidiu. E chorou sozinha, enquanto ele não chegava.</p>
<p>Chorou pelos anos em que estiveram juntos, pelos planos que fizeram, pelos sonhos que não realizaram, pelos risos, pelas horas sérias de olho no olho, pelas noites de amor, pelas manhãs de cumplicidade. Chorou porque não o amava mais e porque sabia que ele sofreria por isso.</p>
<p>Levantou-se e caminhou até a água. A areia sumia debaixo de seus pés enquanto pequenas ondas batiam em seus tornozelos. O vento havia aumentado e seus cabelos esvoaçantes colavam em seu rosto molhado pelas lágrimas. Havia um vazio enorme em seu peito e ela olhou para as próprias mãos. Não acreditava que essas mesmas mãos um dia haviam segurado carinhosamente o rosto dele, enquanto ela dizia &#8220;eu te amo&#8221;. E lembrou das mãos dele em seu corpo. Lembrou do gosto suave de sua boca e do cheiro dos seus cabelos.</p>
<p>Aquilo havia passado. Agora, era apenas recordação. A lembrança daqueles momentos era tudo o que restara do amor que haviam vivido.</p>
<p>&#8220;É melhor assim&#8221; - pensou.</p>
<p>Era bom que lembrasse dele com carinho, já que não o amava mais. E como ele se lembraria dela? Lembraria desse dia na praia, quando ela negou o amor que ele oferecia?</p>
<p>Desejou sinceramente que ele se lembrasse dela com esse mesmo carinho que sentia agora, mas sabia que isso não aconteceria. Conhecia-o bem demais, melhor do que ele próprio se conhecia. Ele lembraria dela com mágoa, pelo fato de que ela era incapaz de amá-lo da mesma maneira que ele a amava. Saber que ele ficaria magoado doía fundo em seu coração, mas ela nada podia fazer. Não podia fingir, não podia mentir. Não para ele.</p>
<p>&#8220;Ainda assim&#8221; - prometeu para si mesma - &#8220;não vou chorar na frente dele&#8221;.</p>
<p>Virou as costas para o mar e percebeu que um homem caminhava em sua direção.</p>
<p>Não era ele.</p>
<p>- Sabrina&#8230; - disse o homem que também tinha lágrimas nos olhos - Ele não vem.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>No dia do funeral, ela ficou o tempo todo ao lado do caixão. Pessoas e mais pessoas tentavam em vão consolá-la, mas ela não conseguia prestar-lhes atenção. Tudo o que conseguia fazer era lembrar daquelas mãos em seu corpo, do gosto suave daquela boca, do cheiro daqueles cabelos, e de todas as coisas a respeito dele, as quais jamais teria novamente.</p>
<p>E não conseguiu cumprir sua promessa. Ali, em frente ao caixão aberto, com olhos fitando o nada e um vazio enorme no peito, Sabrina chorou.</p>
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		<title>O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:47:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?
Pois é, essa é uma boa pergunta.
Não sei quanto a você, mas eu não gosto de ficar sozinho, principalmente nas manhãs de domingo. Pelo menos não gostava naquela época, quando tudo começou. Meus irmãos haviam partido há muito tempo e a solidão mexia [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?</p>
<p>Pois é, essa é uma boa pergunta.</p>
<p>Não sei quanto a você, mas eu não gosto de ficar sozinho, principalmente nas manhãs de domingo. Pelo menos não gostava naquela época, quando tudo começou. Meus irmãos haviam partido há muito tempo e a solidão mexia com a minha imaginação. Passei uma boa parte daquela manhã pensando numa maneira de acabar com o tédio, e então, criei o céu e a terra. Bem, na verdade não foi tão simples assim, mas não vamos nos concentrar em detalhes técnicos, certo?</p>
<p>O fato é que o céu e a terra estavam prontos, mas ainda faltava alguma coisa, embora eu não tivesse consciência do que era.</p>
<p>A terra era sem forma e vazia, e eu olhava para a face do abismo. Aquilo me incomodava, pois parecia que o abismo também olhava para mim! É claro que essa sensação causou uma reverberação na tessitura da realidade - isso sempre acontece quando eu me surpreendo - e algumas pessoas, algum tempo depois, conseguiram captar as vibrações remanescentes daquele início tumultuado. Eu soube que um certo rapaz conseguiu obter alguma fama por negar a minha existência, apesar de uma de suas frases mais célebres ter nascido justamente daquele meu momento de surpresa. Irônico, você não acha?</p>
<p>Ah, sim, falávamos sobre a terra vazia, a face do abismo, e eu comecei a divagar. Perdoe-me, são coisas da idade&#8230;</p>
<p>Pois bem, pensando naquela situação, resolvi criar alguma coisa que me separasse daquilo o que eu havia criado, uma barreira que definisse os limites entre o universo onde eu existia, e aquele que eu acabara de criar. E ainda, eu precisava deixar que houvesse uma maneira de que eu pudesse transcender de um universo para outro. Falar sobre isso é bem mais fácil do que fazê-lo, até mesmo para alguém como eu, mas esses são detalhes técnicos e eu demoraria muito tempo para explicar como essa transcendência é possível.</p>
<p>Para resumir, digamos que eu falei solenemente &#8220;Faça-se a luz&#8221;, e a luz se fez. Sim, sim, colocando a coisa em termos suficientemente simples e de maneira que você possa entender, foi assim mesmo que aconteceu. E quando eu vi o quê havia criado, percebi que aquilo era muito bom! Fiquei tão contente e empolgado comigo mesmo que dancei.</p>
<p>Tempos depois, aquele mesmo rapaz afirmou que só acreditaria em mim se eu soubesse dançar. Pois é, ele era realmente bom em captar as vibrações remanescentes da tessitura da realidade, mas era teimoso demais para acreditar nelas. O curioso é que bilhões de outras pessoas que não foram capazes de sentir a minha presença, acreditaram e ainda acreditam na minha existência, mesmo que de uma forma distorcida. É claro que isso difere de pessoa para pessoa, pois raramente eu me manifesto duas vezes da mesma maneira, e essa diferença de percepção acaba gerando alguns conflitos, que no início eu me empenhava em resolver. Ah, mas os meus dias de interferência ficaram para trás. Sabe como é, houve uma época em que eu pensava que, se podia fazer esses truques, por que deveria evitá-los apenas para que as pessoas, sem um mínimo de esforço, me compreendessem? Eu achava que, pelo fato de ter criado o mundo, podia fazer dele o que bem quisesse. Pobre de mim. Dentre todos os nomes que recebi, talvez o único que tenha faltado - e talvez o mais acertado - seja &#8220;O Ingênuo&#8221;, pois foi exatamente isso que eu fui.</p>
<p>&#8220;Buscai o que está perto e o que está longe, o que está fora e o que está dentro, e então, certamente me encontrareis&#8221;, eu diria, há algum tempo atrás. É, eu gostava dessa coisa de solenidade. Soaria bem, não acha? Ah, mas ninguém entenderia a mensagem! E hoje, mesmo que eu pegasse certas pessoas pelo pescoço e gritasse em seus ouvidos &#8220;Eu estou aqui, suas criaturas estúpidas!&#8221;, elas não me dariam atenção.</p>
<p>Aham, desculpe-me, estou divagando novamente&#8230; Onde estávamos mesmo?</p>
<p>Ah, sim. A luz.</p>
<p>Bem, é basicamente isso. Depois veio a tarde e a manhã do dia seguinte, e o resto você já sabe. Tudo aquilo o que eu criei, infelizmente, acabou se tornando o que é hoje. Não, não estou reclamando. Por favor, não me entenda mal. É só que, às vezes, penso que as coisas poderiam ser um pouco diferentes do que são. Eu era jovem e inexperiente, e fiquei tão excitado com a idéia de criar seres à minha imagem e semelhança que não me dei conta da dor de cabeça que o futuro me reservava. Não posso dizer que tudo tenha saído de acordo com o meu planejamento original, mas esse é o preço pago pelos pioneiros. Talvez eu tenha errado na modelagem de dados, ou na implementação do projeto, sei lá&#8230;</p>
<p>Agora já não há mais nada que eu possa fazer. Hein? Destruir tudo e começar do zero outra vez? Ah, não. Já tentei isso também, e não funcionou.</p>
<p>Sabe, aquela sua primeira pergunta me fez pensar em uma outra pergunta que algumas vezes eu faço a mim mesmo. Se você pudesse voltar ao passado com o conhecimento e a experiência que possui hoje, faria as coisas da mesma maneira que já fez, ou agiria de forma diferente?</p>
<p>Não sei quanto a você, mas se naquela manhã de domingo eu soubesse o que sei hoje, com certeza teria ficado na cama até mais tarde.</p>
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		<title>Canção da autodestruição</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:43:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
A música que toca o silêncio toca a sua alma e você conta contos de fadas para os duendes que admiram a beleza dos corpos das mulheres que caem do céu com asas de anjos e rostos de crianças brincando de roda nas ruas da cidade que não dorme nunca enquanto você acende [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>A música que toca o silêncio toca a sua alma e você conta contos de fadas para os duendes que admiram a beleza dos corpos das mulheres que caem do céu com asas de anjos e rostos de crianças brincando de roda nas ruas da cidade que não dorme nunca enquanto você acende um cigarro e pensa que pode fazer o que quiser da sua vida que é como um sonho ruim ou como se alguém estivesse te observando e contando os dias com choro sincero e piadas sujas e pessoas que você não conhece no seu próprio enterro dizendo que te amam mas não entendem porque você fez aquilo que você não sabe o que é pois não se lembra de nada exceto das mulheres nuas que te seguiam na época em que você era o flautista mágico e do álcool que te faz sentir tão bem e quente e confortável e vivo correndo em suas veias como um veneno que te faz rir e chorar pois você não acredita que acabou de tomar ácido e agora já não sabe mais o que fazer quando o sangue começa a escorrer do seu nariz você só tem tempo de pegar o telefone e ligar para deus pedindo pizza de anchovas e uma nova chance e um cachorro que seja seu amigo e não diga que você não presta e que jogou sua vida fora pela janela que dá para um jardim de violetas e estátuas de mármore as quais você ficou olhando por horas e horas pensando nas mulheres nuas que te seguem mas não existem pois tudo isso é efeito do ácido e do álcool e agora você perdeu o telefone e há um monstro no armário que gosta de recortar as suas revistas prediletas e cuspir no tapete persa da sala e culpar o gato que já não aparece há dias e deve ter morrido atropelado na avenida que te leva até o centro da cidade mas não de ônibus senão as pessoas vão dizer que você é louco e você não precisa que ninguém te diga o que será que está acontecendo agora que começou a chover de novo e seu coração disparou e há dor por toda parte e seu braço esquerdo está pesado e você pensa que vai morrer mas ninguém morre aos vinte e nove anos que você não a vê e imagina se ela ainda está bem depois de todo esse tempo será que ela ainda te ama ou você sente o cheiro de grama mas não sente os seus braços e nem as suas pernas e nem a sua língua por sua própria culpa pois devia ter prestado mais atenção nas aulas de gramática assim podia ter ficado famoso como aquele monte de gente que canta no céu e que nunca te disse o que fazer quando se está sofrendo um ataque cardíaco agora que o monstro do armário está te insultando e pedindo o jornal de hoje que você não comprou porque não tem dinheiro e nem se lembrou de que amnésia seletiva dói demais porque a vida é dor mesmo mas vale a pena quando você pode voar com os anjos de asas enormes que quase tocam as suas e então você começa a cair muito rápido e o medo provoca um frio no seu estômago e você se sente vazio como naquela vez em que ela te deixou sozinho e você teve vontade de morrer mas não morreu porque não deixaram e não souberam te explicar o que acontece com o mundo de hoje quando ninguém mais pode visitar o próprio enterro sem encontrar pessoas desconhecidas e então você chora e toma ácido como se fosse açúcar e rodopia até ficar tonto e cai rindo ao lado das mulheres nuas que te abraçam e fazem carinho nos seus cabelos até que você escuta sem medo o fading da canção da autodestruição e tudo fica escuro e frio e calmo e terno e não resta mais nada, exceto o silêncio.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A doença</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:42:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
		<category><![CDATA[Contos]]></category>

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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
A doença tomou conta de mim, porém, a doença por si só, não me incomoda muito. Maior incômodo é causado pelos criados, advogados, parentes, todos enfim, que se aproximam tal qual abutres esperando pela morte da presa. Tranquei-me no quarto. Já não suporto vê-los com olhos ávidos à beirada da cama toda vez [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>A doença tomou conta de mim, porém, a doença por si só, não me incomoda muito. Maior incômodo é causado pelos criados, advogados, parentes, todos enfim, que se aproximam tal qual abutres esperando pela morte da presa. Tranquei-me no quarto. Já não suporto vê-los com olhos ávidos à beirada da cama toda vez que as minhas mãos tornam-se rígidas e meus dedos tornam-se garras, toda vez que meus lábios se contorcem num ricto e meus olhos esgazeiam. O médico receitou-me remédios, mas temo que eles sirvam apenas para abreviar o pouco de vida que ainda me resta. Certa vez, por uma fresta da porta, vi um sobrinho conversando com o médico, e ambos sorriam sorrisos conspiratórios. Confio em médicos tanto quanto confio em sobrinhos, e, por conta disso, não tomo os remédios que me foram receitados. Ainda ontem trouxeram um padre para que me visse e me confessasse, mas recusei-me prontamente, posto que assim que fosse confessado, estaria oficialmente apto a morrer, coisa que me recuso. Então, com certa satisfação, expulsei o padre aos gritos e atirei contra ele o vidro de remédios. Contudo, agora que sinto as minhas forças se esvaírem, acho que vou convidá-los a entrar. Sim, convidarei a todos. Criados, advogados, médicos, sobrinhos, padres e quem mais queira vir me ver. E então, tomarei as mãos deles nas minhas e implorarei por perdão, por absolvição. E beijarei aquelas mãos, e beijarei aquelas faces, e os abraçarei longamente. Assim, quando eu me for, pelo menos a doença permanecerá.</p>
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		<title>Uma iteração quase perfeita</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:34:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
O Doutor Tetsuo Arakawa estava extremamente ansioso. Estava a um passo de ser reconhecido mundialmente como um dos maiores cientistas de todos os tempos. Em breve seu nome estaria ao lado dos nomes de Bors, Heisemberg, Einstein ou até mesmo Newton! Todo o trabalho de sua vida estava aplicado na forma metálica que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>O Doutor Tetsuo Arakawa estava extremamente ansioso. Estava a um passo de ser reconhecido mundialmente como um dos maiores cientistas de todos os tempos. Em breve seu nome estaria ao lado dos nomes de Bors, Heisemberg, Einstein ou até mesmo Newton! Todo o trabalho de sua vida estava aplicado na forma metálica que aparecia pela escotilha de seus aposentos na estação orbital Acrópolis.</p>
<p>A sua nave.</p>
<p>Na verdade, ela pertencia ao governo, mas desde que desenvolvera a teoria da quantização do espaço-tempo, o Projeto Quantum e construção daquela nave receberam seus esforços em tempo integral. É claro, havia também a equipe de técnicos e engenheiros, mas nenhum deles se envolvera com aquele projeto da maneira como o Dr. Arakawa fizera, e por isso, ele a considerava como sua.</p>
<p>A Juno, como fora batizada, era uma nave de casco cilíndrico, de pouco mais de trinta metros de comprimento, que eram reservados, na sua maior parte, ao módulo de serviço e ao sistema de controle de ambiente e suporte à vida. O espaço para o piloto, o único tripulante, era mínimo. A sua construção levara seis anos e vários bilhões de dólares para ser completada. Agora ela estava pronta e dentro de uns poucos minutos iria desaparecer diante dos olhos incrédulos da humanidade.</p>
<p>Na verdade ela não desapareceria, seria transportada. Era o acontecia com os seus quantizadores do espaço-tempo. Esta seria a primeira vez em que transportariam um ser humano através daquele aparato, e tendo em vista a grande massa da estrutura necessária para tal empresa, ela teria de ser realizada num ambiente de gravidade quase nula, caso contrário o gasto de energia seria proibitivo. Lá estavam eles, então, no espaço.</p>
<p>Aquele dia seria lembrado como o dia em que a humanidade desvendou as bases da realidade. Aquela viagem seria o golpe definitivo no princípio da incerteza, que dizia não ser possível determinar a posição exata de uma partícula no espaço-tempo e a sua velocidade de deslocamento, simultaneamente. </p>
<p>A velocidade de todas as partículas da nave deveria ser minuciosamente calculada e controlada, bem como a posição e o sentido do movimento de cada uma delas, uma vez que, se apenas algumas partículas viajassem com velocidade superior ou inferior a outras, ou num sentido apenas ligeiramente diferente, toda a estrutura  se desintegraria. Os críticos e opositores do Dr. Arakawa acreditavam que era isso mesmo que aconteceria à nave, e freqüentemente atacavam-no baseados na acusação de que ele causaria a morte de um ser humano, o piloto, apenas para perceber que as leis do universo há muito estavam estabelecidas, eram imutáveis, e não podiam ser desafiadas inpunemente.</p>
<p>Entretanto, o Dr. Arakawa acreditava que os seus críticos estavam errados, e dentro de pouquíssimo tempo comprovaria que a velocidade da luz pode ser ultrapassada, ainda que subjetivamente. O empuxo utilizado seria apenas o suficiente para levar a Juno e seu tripulante até um pouco além da órbita de Plutão, de onde ele filmaria o planeta, faria uma transmissão de rádio para a Terra e voltaria bem antes da chegada da mensagem. Seria uma viagem interessante. Pouco mais de dois segundos para cobrir aproximadamente quarenta Unidades Astronômicas. A velocidade média seria de aproximadamente dez mil vezes a velocidade da luz, isto é, se o conceito de velocidade pudesse ser aplicado naquele caso, mas não podia. Do ponto de vista do piloto, não haveria sequer deslocamento e os momentos de partir e chegar, se confundiriam num único instante.</p>
<p>É claro que qualquer falha nos sistemas ou nos computadores seria fatal. A nave poderia ser transportada para um ponto muito distante do sistema solar, ser atraída pelo campo gravitacional de algum planeta, entrar em curso de colisão com qualquer corpo espacial, ou simplesmente desintegrar-se. Era isso que preocupava o Dr. Arakawa. Ele estava seguro quanto à comprovação de sua teoria, mas havia milhares de coisas que poderiam dar errado quanto ao funcionamento da nave, e se algo acontecesse, seria o fim de sua carreira e o fim da vida de um jovem que ele mal conhecia. A responsabilidade pela morte de um ser humano seria um peso terrível na consciência do Dr. Arakawa, e agora, essa perspectiva fazia com que a sua ansiedade se tornasse quase insuportável.</p>
<p>Dirigiu-se à ponte de observação da Acrópolis, onde haviam sido instalados os sistemas de controle da missão, e tomou o seu lugar nos preparativos para o lançamento da Juno, que seria acompanhado ao vivo por todas as redes de televisão do mundo inteiro.</p>
<p>Havia muito pouco o que ele pudesse fazer agora, pois os técnicos cuidavam de todos os aspectos operacionais do lançamento, e o Dr. Arakawa suspirou profundamente, imaginando com uma ponta de inveja, como se sentiria o piloto naquele momento.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>Daniel Kauffman considerava-se um homem calmo, mas, naquele momento, calma era a última coisa que passava por sua cabeça. A bordo da Juno, ele esperava ansiosamente pelo término da contagem regressiva de lançamento, imaginando que eles faziam aquilo para enervar os astronautas. Participara de várias missões orbitais durante a construção da estação Acrópolis, mas nunca se acostumara com a contagem regressiva, e a detestava principalmente neste momento, em que todas as partículas do seu corpo, e da nave ao seu redor, estavam para atravessar o que o Dr. Arakawa chamava de &#8220;barreira do espaço-tempo&#8221;.</p>
<p>Aquela missão seria diferente das outras. Segundo os técnicos do Projeto Quantum, além de não sentir a passagem do tempo, ele não sentiria qualquer efeito da inércia, pelo fato de que todas as partículas de seu corpo, juntamente com as da nave, seriam aceleradas ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, portanto não haveria qualquer desconforto. Pelo menos teoricamente, era o que diziam, e era exatamente toda essa teoria que preocupava Daniel.</p>
<p>Em todo caso, como de costume em viagens espaciais, os computadores estavam monitorando as suas funções fisiológicas e abortariam a missão assim que detectassem qualquer perigo para sua integridade física. O único problema era que, se para ele não existiria a passagem de tempo, tampouco existiria para os computadores, e quando a coisa toda terminasse, talvez fosse tarde demais para qualquer verificação.</p>
<p>Dois segundos, do ponto de vista do controle da missão, e ele estaria em Plutão. Daniel achava incrível imaginar a que distância chegariam se viajassem durante um mês, o que certamente fariam após o estudo de todas as informações que colheriam nesta primeira missão.</p>
<p>- Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais esteve - pensava ele, um tanto preocupado, lembrando-se do antigo seriado de tevê.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>Na hora estipulada, ao fim da contagem regressiva, a Juno fez a sua viagem. Como esperado, não havia nada que pudesse indicar qualquer deslocamento de matéria do lugar onde antes havia uma nave. Para bilhões de espectadores no mundo inteiro, ela simplesmente deixara de existir.</p>
<p>Todos os técnicos, e inclusive o Dr. Arakawa, comemoraram o sucesso do Projeto Quantum, mas isso era apenas a metade da missão. Eles deviam aguardar a volta da nave, que aconteceria dentro em poucos minutos. Todos os sensores da estação orbital foram desviados para o ponto onde ela deveria aparecer, mesmo sabendo que só teriam qualquer confirmação da presença da nave algum tempo depois que ela retornasse.</p>
<p>Contudo, a Juno nunca retornou, e após a sua partida, ninguém jamais conseguiu encontrar qualquer indício de sua presença, em qualquer lugar do universo observável.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>O monitor de vídeo da Juno, que deveria estar mostrando Plutão neste momento, apresentava uma imagem que não podia ser a realidade. Daniel Kauffman verificou todos os sensores da nave e concluiu que estava louco, ou então a nave estava realmente aterrissada em um planeta que possuía as mesmas condições gravitacionais e atmosféricas da Terra.</p>
<p>Após as confirmar as leituras, Daniel programou o envio de uma mensagem periódica de socorro, em todas as direções, esperando que o controle da missão a recebesse e identificasse as coordenadas da sua localização, já que o computador da nave não conseguia definir onde estava. Todos os sensores estavam fora de escala. Daniel sabia que a sua situação era grave. A viagem, segundo os computadores, havia transcorrido conforme as especificações, mas o levara mais longe do que qualquer um poderia imaginar. Alguém havia cometido um terrível erro de cálculo - ele pensava - e quando voltasse, se é que voltaria algum dia, esse alguém pagaria caro por isso.</p>
<p>Talvez fosse um efeito colateral dos campos quânticos aos quais estivera exposto - Daniel pensava - mas ele não se lembrava de ter pousado a nave, e mesmo isso era impossível, pois ela fora construída no espaço e sua estrutura não suportaria a tensão de uma entrada atmosférica.</p>
<p>Era um paradoxo. Se todos os sistemas funcionavam perfeitamente, era impossível que a nave estivesse aterrissada e intactada, e se isso era verdade, como parecia, os sistemas não poderiam estar funcionando corretamente. Daniel sabia que não havia nada que pudesse fazer ali dentro, e decidiu sair da nave, afim de explorar o terreno. Os computadores diziam que o ar do planeta era respirável, e embora ele não mais confiasse naqueles computadores, sabia que o seu suprimento de ar era limitado. Mais cedo ou mais tarde ele teria que se arriscar na atmosfera do planeta, então, decidiu fazer isso de uma vez por todas.</p>
<p>Com cuidado, ele saiu da nave, e lentamente tirou o capacete do traje espacial. Onde quer que fosse aquele lugar, possuía mesmo a gravidade correta e uma atmosfera asséptica, na qual não se podia identificar nenhum cheiro. Não havia nenhum deslocamento de ar e nenhum som. Seu computador de mão dizia que a temperatura ambiente era de exatamente 22º Celcius.</p>
<p>O solo era feito de grãos de areia muito finos e completamente brancos. No céu, também branco e sem nenhuma nuvem, não se podia identificar nenhuma fonte de luz, que sem dúvida era equivalente ao Sol, numa manhã normal da Terra. Deu a volta na nave e não viu qualquer sinal ou marca na areia que sugerisse que a nave houvesse caído. Quando olhou à frente da nave, a uma distância que não podia definir por falta de pontos de referência, viu uma estrutura em forma de cúpula, parecida com um iglu.</p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>- Seja benvindo Daniel Kauffman - disse o homem que estava à porta da cúpula - Queira me acompanhar, por favor. Eu estava esperando por você.</p>
<p>- Quem é você, ou o que é você, e como sabe o meu nome? - perguntou Daniel, enquanto o acompanhava por um longo corredor, no interior daquele iglu que tinha a altura de no mínimo vinte andares.</p>
<p>Era incrível que naquele lugar, que Daniel já aceitava como sendo um outro planeta, houvessem seres humanos, embora fossem um tanto diferentes. O rosto daquele homem tinha  uma expressão de tranqüilidade que Daniel vira poucas vezes durante sua vida, e ele usava uma espécie de macacão branco que só deixava as mãos e a cabeça de fora. Daniel não podia ver as emendas ou costuras daquela roupa.</p>
<p>Os cabelos do homem eram curtos e brancos, embora ele não aparentasse ter mais de trinta anos. Seus olhos, sem íris, tinham a mesma luminosidade daquele lugar. Seus movimentos eram naturais e Daniel sentiu-se à vontade na presença dele. Sentiu que podia confiar naquele homem, apesar de que tudo o estava acontecendo parecia não passar de loucura.</p>
<p>- Eu sou o seu Anfitrião, uma forma antropomórfica criada pelo Modelador para recebê-lo. Sei o seu nome porque assim determinou o Modelador.</p>
<p>- Que tipo de lugar é este, e como vim parar aqui? E quem é esse tal de modelador?</p>
<p>- Você transcendeu os limites do espaço-tempo do seu universo, Daniel. Portanto agora está num lugar fora daquele universo. De maneira que você possa entender, a denominação mais aproximada para este lugar é não-espaço-não-tempo. A última pergunta requer uma explanação um tanto detalhada.</p>
<p>Chegaram a uma sala de estar e Daniel achou muito estranho que ela fosse exatamente igual à sua própria sala, no apartamento que tinha na Terra, antes de se mudar para a estação orbital Acrópolis.</p>
<p>- Sente-se - disse o Anfitrião - Deseja alguma coisa? Talvez uma bebida?</p>
<p>- Sim, obrigado. Cerveja, se você tiver. - Daniel sentou-se olhando a sua volta, enquanto o Anfitrião saía por uma porta que Daniel sabia levar até a cozinha. Tudo era exatamente igual ao seu apartamento, exceto pela cor. Não ia admirar-se se a cerveja também fosse branca.</p>
<p>Quando o Anfitrião voltou, com um copo de cerveja espumante, encontrou Daniel boquiaberto, em pé diante da janela, que estava a uma altura de pelo menos dez andares.</p>
<p>- Como foi que subimos? Eu achei que estávamos no andar térreo! E por que tudo é branco? - perguntou Daniel, bebendo a cerveja branca que tinha exatamente o gosto que deveria ter.</p>
<p>- O Modelador achou que, como este apartamento é uma réplica quase exata do seu, a perspectiva da vista da janela também deveria ser parecida, embora a vista seja completamente diferente. Tudo é branco porque o Modelador assim determinou. Quanto à sua pergunta anterior - O Anfitrião fez um gesto com a mão, para que Daniel se sentasse e fez o mesmo, na poltrona ao lado - eis a resposta.</p>
<p>&#8220;Há muito tempo atrás, em uma medida que não faz sentido em seu universo, o Modelador foi criado. Ele era o que você conhece como computador, e foi desenvolvido para que cobrisse todas as possibilidades de uma certa atividade. Descrevendo-o de um modo grosseiro, ele era um aparelho que calculava e imprimia possibilidades.</p>
<p>O seu Criador, que na época interessava-se por aquilo que você conhece como literatura, programou o Modelador para que imprimisse seqüências infinitas de letras de comprimento variável. A cada iteração de um círculo fechado de computação, um certo número de letras era impresso. Desta forma, imaginou o Criador, seriam escritas todas as histórias possíveis e imagináveis, aproveitando-se do fato que para ele, o tempo não tinha razão de ser. Como é dito em seu universo, um número suficiente grande de chimpanzés batendo à máquina de escrever, por um tempo suficientemente longo, poderia reproduzir todas as obras já escritas, e ainda poderia escrever obras inéditas. Fazendo uma analogia grosseira, o Modelador era como um número absurdamente grande de chimpanzés, com muito tempo livre.</p>
<p>Entretanto, logo o Criador percebeu que a grande maioria das histórias não fazia sentido, muitas continham erros graves, algumas ainda tinham pequenas imperfeições, umas poucas continham erros quase imperceptíveis e pouquíssimas eram coerentes. Estas últimas eram as que interessavam.</p>
<p>Então, o Criador desenvolveu o Crítico, um aparato inteligente que acompanharia o trabalho do Modelador, e ao menor sinal de incoerência, abortaria aquela iteração do círculo de programação e passaria para a próxima.</p>
<p>Isso então aconteceu, e foram escritas, analisadas e armazenadas incontáveis histórias, até que a técnica e o gosto do Criador se tornaram mais refinados.</p>
<p>Ao invés de palavras impressas, o Modelador e o Crítico foram reformulados para que manipulassem e analisassem formas e cores em duas dimensões, em combinações infinitas. Assim foi feito e uma quantidade enorme daquilo que você conhece por imagens foi criada, analisada e arquivada.</p>
<p>Seguiram-se, então, várias adaptações ao Modelador e ao Crítico, para que manipulassem imagens e cores em três dimensões, imagens e cores em quatro dimensões, a matéria em três dimensões, a matéria em quatro dimensões - o que no seu universo é conhecido por espaço-tempo - e por fim, a matéria em múltiplas dimensões.</p>
<p>Tudo aquilo que você conhece por realidade é determinado pela lógica da programação infinita do Modelador, e pela aprovação sensata do Crítico.&#8221;</p>
<p>Daniel estava perplexo. Teve um acesso de riso histérico, mas parou quando viu que o rosto do Anfitrião continuava sereno como sempre.</p>
<p>- Isso não pode ser verdade! - disse Daniel - Você está me dizendo que esse tal Modelador escreve o livro do destino? De que maneira então teríamos a liberdade de decidir entre o que é certo e o que é errado? Onde estaria o livre-arbítrio nesse mundo que você descreve?</p>
<p>- Não existe tal coisa - disse o Anfitrião - Todos os pensamentos, a duração de todas as vidas, o movimento dos maiores astros, as interações entre as mais ínfimas partículas, tudo é determinado pelo Modelador. Acredite, Daniel, eu não faria melhor analogia: o Modelador escreve o Livro do Destino, por assim dizer.</p>
<p>Daniel sentiu-se muito cansado e abatido, recostou a cabeça na poltrona e desejou que estivesse sonhando, ou que estivesse louco. Porém, em seu íntimo sabia que aquilo tudo era mesmo verdade. Imaginou que o programa do Modelador havia determinado que ele deveria acreditar no Anfitrião, e por isso ele acreditava.</p>
<p>- O que acontecerá com o meu mundo, com meu universo? - perguntou.</p>
<p>- Caso ele seja coerente até o fim de uma iteração do programa, será armazenado para que o Criador possa estudá-lo. Caso contrário, suas partículas serão desintegradas e reintegradas para a próxima iteração.</p>
<p>- E eu poderei voltar para lá?</p>
<p>- Impossível - respondeu o Anfitrião - Isso causaria um contra-senso, uma falta de coerência em seu universo, e ele teria que ser desintegrado. O Crítico zela para que cada iteração seja o mais coerente possível, pois assim o Criador poderá estudá-la.</p>
<p>Daniel imaginou um Criador extremamente velho, magro e curvado, examinando um universo guardado dentro de um pote de biscoitos que ficava na prateleira de cima de um armário de vassouras gigantesco. Imaginou depois, todo um universo sendo desintegrado por causa de alguém que se atirava do alto da Torre de Pizza e caía suavemente, sorrindo numa calçada de Nova Delhi. Nenhuma das duas perspectivas era agradável.</p>
<p>- Então o que aconteceu comigo? Estou fora do espaço-tempo, você disse, certo? Então não sofro a influência do seu Modelador, certo?</p>
<p>- Errado - disse o Anfitrião - Você escapou do seu espaço-tempo, isto não significa que não existam outros, ou que eles não estejam sob o controle e a influência multidimensional do Modelador e do Crítico.</p>
<p>- E agora? O que faremos? - houvesse livre arbítrio ou não, naquele momento, Daniel não sabia mesmo o que fazer.</p>
<p>- Esperaremos pela conclusão desta iteração - respondeu calmamente o Anfitrião, recostando também a cabeça na poltrona - Parece que esse é o começo de uma longa amiz</p>
<p><font face='courier new' color='#ff0000'></p>
<p>Atenção: Erro na inserção de cadeia de texto</p>
<p>Atenção: Abortando iteração</p>
<p>Atenção: Iteração abortada</p>
<p></font></p>
<p align='center'>* * *</p>
<p>O Crítico pressionou o botão que determinava a destruição daquela iteração, fez os ajustes das próximas condições iniciais para que o erro fosse corrigido, e pressionou outro botão, que determinava o início da próxima iteração. O Modelador executou sua tarefa, exatamente como vinha fazendo a incontáveis eras, e o Crítico pensou em como o Criador estava certo quando disse que todas as histórias possíveis seriam escritas.</p>
<p>Na opinião do Criador, todas as histórias coerentes eram interessantes, mas na do Crítico, esta última havia sido particularmente interessante. Depois de tanto tempo havia se tornado rotina aceitar o fato de ver representadas coisas improváveis, mas coerentes, nas histórias do Modelador. Porém, durante toda a sua existência, jamais houvera uma representação tão próxima da verdade, inclusive em nomes e conceitos. Pena que aquele pequeno problema com a última palavra tinha posto toda iteração a perder.</p>
<p>É claro que nem todos os conceitos científicos expostos eram aceitáveis, principalmente aqueles referentes à mecânica quântica, mas afinal tudo aquilo tratava-se de ficção, e em todo caso o conserto já fora providenciado. A próxima iteração seria perfeita, e então, arquivada.</p>
<p>Sorrindo, o Crítico pensou em sugerir ao Criador que guardasse a próxima iteração no pote de biscoitos que ficava na prateleira de cima de seu armário de vassouras.</p>
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		<title>O sonho do deus Brahma</title>
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		<pubDate>Tue, 10 Apr 2007 18:31:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério Mendes</dc:creator>
		
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		<description><![CDATA[por Rogério Mendes
Ele estava sentado num banco de rodoviária de cidade pequena, esperando pelo ônibus que o levaria de volta para casa. Várias pessoas estavam sentadas à sua volta, cada uma cuidando do seu próprio marasmo, também esperando pelos ônibus que as levariam aos seus respectivos destinos.
Uma televisão ligada num canal qualquer, mostrava as imagens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align='right'><b>por Rogério Mendes</b></p>
<p>Ele estava sentado num banco de rodoviária de cidade pequena, esperando pelo ônibus que o levaria de volta para casa. Várias pessoas estavam sentadas à sua volta, cada uma cuidando do seu próprio marasmo, também esperando pelos ônibus que as levariam aos seus respectivos destinos.</p>
<p>Uma televisão ligada num canal qualquer, mostrava as imagens de uma guerra qualquer. Outra guerra, mesma guerra, tanto faz. &#8220;Triste mundo em que vivemos, onde as guerras viraram lugar comum&#8221; - ele pensava. Decidiu comprar alguma coisa para ler, alguma coisa que espantasse o tédio. Foi até a livraria da rodoviária e passou os olhos pelos jornais e revistas, mas nada lhe chamou atenção. Manchetes desgastadas, crimes passionais, tráfico de drogas, mulheres nuas, corrupção no governo, as mesmíssimas notícias de sempre. Com um suspiro, passou para as estantes de livros. Anjos, manuais de auto-ajuda, pseudo-zen-espiritismo. Estantes cheias de livros com assuntos mastigados e digeridos, e todos com o segredo do sucesso, tanto material, espiritual como amoroso, impressos em letras graúdas. Literatura de massas. &#8220;Estupidificação das massas, isso sim&#8221; - ele pensava.</p>
<p>Continuou procurando por algum livro que servisse para quem tem pelo menos a metade do cérebro, mas os títulos e assuntos eram bastante sugestivos. Zen e a arte de encher balões de festa. Por apenas catorze e noventa e cinco descubra como ganhar milhões. Pergunte ao seu anjo qual a cor da aura de sua alma gêmea.</p>
<p>Escolheu um livro ao acaso. Nem olhou o título. Naquele momento, ele tinha certeza de que aquele livro não acrescentaria nada à sua vida, que não havia nenhuma verdade universal impressa alí. Só queria fazer o tempo passar mais depressa.</p>
<p>Pagou pelo livro e voltou a sentar no banco da rodoviária. Olhou para o relógio e viu que ainda faltava cerca de uma hora para a partida do ônibus. Resolveu começar a ler. Uma fotografia do autor estava impressa na quarta capa e o sujeito tinha cara de canastrão. Suas feições eram caucasianas, mas ele usava turbante e roupas típicas da Índia. Seu nome era Sethraman Hadgi e ele parecia muito mais ser europeu do que qualquer outra coisa. Devia ter passado duas semanas na Índia e escrito o livro sob esse pseudônimo para dar um ar de reverência à obra, assim talvez vendesse mais. O título era &#8220;O sonho do deus Brahma&#8221;.</p>
<p>&#8220;Droga!&#8221; - pensou - &#8220;Com tanto livro, comprei logo um sobre Hare Krishna&#8221;.</p>
<p>Quando começou a ler, viu que estava enganado. O livro falava sobre as bases da realidade, falava sobre como o mundo realmente é, e sobre a maneira equivocada como o vemos.</p>
<p>&#8220;O mundo é Maya&#8221; - explicava o livro - &#8220;O mundo é Ilusão. Nada existe de verdade, ou melhor, nada além do sonhador. Só existe Brahma, o deus adormecido. E enquanto dorme, Brahma sonha o mundo&#8221;.</p>
<p>Segundo o livro, o mundo seria um reflexo dos devaneios do sonhador. No momento em que este despertasse, o mundo deixaria de existir e seria lembrado apenas como um acontecimento casual na eternidade do deus.</p>
<p>Sethraman Hadgi afirmava que ele próprio não existia, que era apenas um nome escolhido ao acaso pelo subconsciente do sonhador, para mostrar ao próprio deus que tudo não passava de um sonho.</p>
<p>&#8220;As pessoas têm a certeza de que viveram momentos felizes e tristes.&#8221; - continuava o livro - &#8220;Sabem que amaram, sabem que odiaram. Lembram-se de ter freqüentado escolas e de ter realizado grandes e pequenas obras. Testemunham a passagem dos dias e o ritmo das estações. Calculam o movimento das estrelas e as variações nas bolsas de valores. Tudo isso é Maya. Tudo é Ilusão. As pessoas existem por momentos ínfimos e apenas enquanto Brahma lhes presta atenção, embora tenham a sensação de ter vivido muito tempo e apesar de terem lembranças de fatos passados. O universo é um palco onde é representada uma peça para um único espectador, porém, nem ele nem os atores têm consciência do que realmente acontece à sua volta. Quando Brahma despertar, o mundo desvanecerá.&#8221;</p>
<p>Fechou o livro abruptamente e percebeu que havia ficado frustrado, como aliás, já esperava que acontecesse. Não conseguiu entender o que o hindu queria dizer com aquilo tudo, nem conseguiu ver o ponto aonde ele queria chegar. Na melhor das hipóteses, o autor estava usando uma metáfora para explicar a grande espiritualidade dos hindus. Na pior, aquilo não passava de mais uma crença sem fundamento, uma nova forma de esoterismo, altamente rentável.</p>
<p>Olhou a sua volta e viu que a rodoviária havia tomado um aspecto estranho, onírico. Seu coração acelerou e ele sentiu um nó na garganta. A realidade havia mudado, o mundo já não era mais o mesmo. As cores estavam todas erradas e as imagens levemente distorcidas, como se a atmosfera fosse densa como água. Percebeu com espanto que estava realmente dentro de um sonho.</p>
<p>&#8220;Como isso pode acontecer?&#8221; - pensava. Aquilo não podia acontecer, a menos que ele próprio estivesse sonhando, mas sabia que estava desperto. A menos que&#8230;</p>
<p>Então entendeu. Ele próprio era o deus Brahma. O sonho era dele, o mundo era dele. Nada existia, a não ser em função dele próprio. A realidade conspirava a seu favor. E agora ele sabia disso.</p>
<p>Pensou na guerra, nas estantes cheias de livros insípidos, no ônibus que já estava atrasado, no mundo à sua volta, enfim. Nada daquilo era real e nada mais tinha importância. As coisas só passariam a existir em seu sonho, quando ele prestasse atenção a elas. Sorriu satisfeito e entendeu que sendo mestre do mundo, todos os seus desejos seriam realizados, todos os seus anseios prontamente atendidos.</p>
<p>Uma garota carregando um filhote de poodle no colo, sentou-se no banco ao lado dele.</p>
<p>Ela era bonita, ele notou. Morena, alta, cabelos lisos e curtos, olhos verdes, corpo escultural, perfeita. Exatamente da maneira como ele gostava das mulheres.</p>
<p>Sim, sim, todos seus anseios seriam atendidos, mas ele não podia simplesmente agarrar a garota. Não era assim que as coisas funcionavam. Deveria haver um romance, amor, deveria haver paixão de ambas as partes, mesmo que ela não soubesse que estava ali apenas para serví-lo, apenas para tornar realidade os seus desejos mais secretos.</p>
<p>Ela olhou para ele e sorriu. Ele viu os dentes brancos, perfeitos, e suspirou agradecendo a Deus. Franziu a testa. Que Deus? Ele próprio era um deus, não precisava agradecer a nada, nem a ninguém.</p>
<p>- Vai tomar o ônibus? - disse a garota e só então ele percebeu que seu ônibus já estava estacionado na plataforma.</p>
<p>- Não. Vou ficar aqui até conhecê-la melhor - respondeu sorrindo.</p>
<p>A garota fez uma expressão de estranheza e mostrou um sorriso amarelo.</p>
<p>- Como disse?</p>
<p>- Sempre esperei por você. - disse ele, aproximando-se da garota - A minha vida inteira esperei por este momento. Você é exatamente como sempre imaginei. É a mulher dos meus sonhos.</p>
<p>A garota ficou constrangida. O cachorro no colo dela latiu alto e, assustado, ele se afastou. Ela se levantou, virou-lhe as costas e se atirou nos braços de um rapaz que acabara de descer do ônibus. Os dois se beijaram longamente. O cachorro, apertado entre os namorados, continuava a latir, mas agora parecia satisfeito.</p>
<p>Ele ficou perplexo e continuou sentado, pensando no que havia feito de errado. Aquela cena não deveria estar acontecendo. Não no seu sonho.</p>
<p>Viu o casal se afastar e pôde ouvir o rapaz perguntar &#8220;Quem era aquele?&#8221;. Ouviu a garota responder &#8220;Um maluco qualquer&#8221;.</p>
<p>Ficou imaginando o que deveria fazer, mas não fez nada. Talvez o fato de ser um deus não significava que ele era onipotente. Jurou a si mesmo que de agora em diante não iria mais deixar que seu sonho lhe pregasse peças. Ele era Brahma, ele era o motivo da existência das coisas, mas talvez precisasse de um pouco mais de prática nesse negócio de realização de desejos. Olhou para o relógio sem a mínima pretensão de saber as horas. Era um gesto automático, apenas a confirmação da derrota que havia sofrido.</p>
<p>Foi então que percebeu que não podia ver as horas pois não havia mais ponteiros em seu relógio. Com espanto, viu que seu braço estava ficando transparente. Não apenas o braço, como todo o seu corpo, o banco, o ônibus, a rodoviária, as pessoas, tudo. O livro já havia desaparecido por completo.</p>
<p>Tudo que estava às costas da garota estava desvanecendo diante de seus olhos incrédulos.</p>
<p>&#8220;Isso não pode ser verdade!&#8221; - pensava. Ele era real! Tinha casa, um trabalho, uma vida, um nome!</p>
<p>Qual era mesmo o seu nome? Não se lembrava mais. Sentiu que era difícil manter os pensamentos em ordem e concentrou-se apenas na garota. Ela seguia em frente, abraçada ao namorado e com o cachorro no colo. Ele se levantou e tentou gritar, tentou chamar-lhe a atenção, mas seu grito foi como um sussurro. Tentou correr ao encontro dela, mas não conseguiu dar um passo sequer.</p>
<p>Com tristeza, percebeu que não era ele o sonhador. Ele era apenas um coadjuvante, alguém sem importância, um personagem de pouca monta, um figurante no sonho de outra pessoa. Antes de desaparecer por completo, imaginou que talvez aquela garota fosse o deus Brahma, mas não podia afirmar com certeza.</p>
<p>Podia ser o namorado dela, ou até mesmo o poodle.</p>
<p>Afinal, quem pode saber com o quê sonham os deuses?</p>
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