por Rogério Mendes
Ele estava sentado num banco de rodoviária de cidade pequena, esperando pelo ônibus que o levaria de volta para casa. Várias pessoas estavam sentadas à sua volta, cada uma cuidando do seu próprio marasmo, também esperando pelos ônibus que as levariam aos seus respectivos destinos.
Uma televisão ligada num canal qualquer, mostrava as imagens de uma guerra qualquer. Outra guerra, mesma guerra, tanto faz. “Triste mundo em que vivemos, onde as guerras viraram lugar comum” - ele pensava. Decidiu comprar alguma coisa para ler, alguma coisa que espantasse o tédio. Foi até a livraria da rodoviária e passou os olhos pelos jornais e revistas, mas nada lhe chamou atenção. Manchetes desgastadas, crimes passionais, tráfico de drogas, mulheres nuas, corrupção no governo, as mesmíssimas notícias de sempre. Com um suspiro, passou para as estantes de livros. Anjos, manuais de auto-ajuda, pseudo-zen-espiritismo. Estantes cheias de livros com assuntos mastigados e digeridos, e todos com o segredo do sucesso, tanto material, espiritual como amoroso, impressos em letras graúdas. Literatura de massas. “Estupidificação das massas, isso sim” - ele pensava.
Continuou procurando por algum livro que servisse para quem tem pelo menos a metade do cérebro, mas os títulos e assuntos eram bastante sugestivos. Zen e a arte de encher balões de festa. Por apenas catorze e noventa e cinco descubra como ganhar milhões. Pergunte ao seu anjo qual a cor da aura de sua alma gêmea.
Escolheu um livro ao acaso. Nem olhou o título. Naquele momento, ele tinha certeza de que aquele livro não acrescentaria nada à sua vida, que não havia nenhuma verdade universal impressa alí. Só queria fazer o tempo passar mais depressa.
Pagou pelo livro e voltou a sentar no banco da rodoviária. Olhou para o relógio e viu que ainda faltava cerca de uma hora para a partida do ônibus. Resolveu começar a ler. Uma fotografia do autor estava impressa na quarta capa e o sujeito tinha cara de canastrão. Suas feições eram caucasianas, mas ele usava turbante e roupas típicas da Índia. Seu nome era Sethraman Hadgi e ele parecia muito mais ser europeu do que qualquer outra coisa. Devia ter passado duas semanas na Índia e escrito o livro sob esse pseudônimo para dar um ar de reverência à obra, assim talvez vendesse mais. O título era “O sonho do deus Brahma”.
“Droga!” - pensou - “Com tanto livro, comprei logo um sobre Hare Krishna”.
Quando começou a ler, viu que estava enganado. O livro falava sobre as bases da realidade, falava sobre como o mundo realmente é, e sobre a maneira equivocada como o vemos.
“O mundo é Maya” - explicava o livro - “O mundo é Ilusão. Nada existe de verdade, ou melhor, nada além do sonhador. Só existe Brahma, o deus adormecido. E enquanto dorme, Brahma sonha o mundo”.
Segundo o livro, o mundo seria um reflexo dos devaneios do sonhador. No momento em que este despertasse, o mundo deixaria de existir e seria lembrado apenas como um acontecimento casual na eternidade do deus.
Sethraman Hadgi afirmava que ele próprio não existia, que era apenas um nome escolhido ao acaso pelo subconsciente do sonhador, para mostrar ao próprio deus que tudo não passava de um sonho.
“As pessoas têm a certeza de que viveram momentos felizes e tristes.” - continuava o livro - “Sabem que amaram, sabem que odiaram. Lembram-se de ter freqüentado escolas e de ter realizado grandes e pequenas obras. Testemunham a passagem dos dias e o ritmo das estações. Calculam o movimento das estrelas e as variações nas bolsas de valores. Tudo isso é Maya. Tudo é Ilusão. As pessoas existem por momentos ínfimos e apenas enquanto Brahma lhes presta atenção, embora tenham a sensação de ter vivido muito tempo e apesar de terem lembranças de fatos passados. O universo é um palco onde é representada uma peça para um único espectador, porém, nem ele nem os atores têm consciência do que realmente acontece à sua volta. Quando Brahma despertar, o mundo desvanecerá.”
Fechou o livro abruptamente e percebeu que havia ficado frustrado, como aliás, já esperava que acontecesse. Não conseguiu entender o que o hindu queria dizer com aquilo tudo, nem conseguiu ver o ponto aonde ele queria chegar. Na melhor das hipóteses, o autor estava usando uma metáfora para explicar a grande espiritualidade dos hindus. Na pior, aquilo não passava de mais uma crença sem fundamento, uma nova forma de esoterismo, altamente rentável.
Olhou a sua volta e viu que a rodoviária havia tomado um aspecto estranho, onírico. Seu coração acelerou e ele sentiu um nó na garganta. A realidade havia mudado, o mundo já não era mais o mesmo. As cores estavam todas erradas e as imagens levemente distorcidas, como se a atmosfera fosse densa como água. Percebeu com espanto que estava realmente dentro de um sonho.
“Como isso pode acontecer?” - pensava. Aquilo não podia acontecer, a menos que ele próprio estivesse sonhando, mas sabia que estava desperto. A menos que…
Então entendeu. Ele próprio era o deus Brahma. O sonho era dele, o mundo era dele. Nada existia, a não ser em função dele próprio. A realidade conspirava a seu favor. E agora ele sabia disso.
Pensou na guerra, nas estantes cheias de livros insípidos, no ônibus que já estava atrasado, no mundo à sua volta, enfim. Nada daquilo era real e nada mais tinha importância. As coisas só passariam a existir em seu sonho, quando ele prestasse atenção a elas. Sorriu satisfeito e entendeu que sendo mestre do mundo, todos os seus desejos seriam realizados, todos os seus anseios prontamente atendidos.
Uma garota carregando um filhote de poodle no colo, sentou-se no banco ao lado dele.
Ela era bonita, ele notou. Morena, alta, cabelos lisos e curtos, olhos verdes, corpo escultural, perfeita. Exatamente da maneira como ele gostava das mulheres.
Sim, sim, todos seus anseios seriam atendidos, mas ele não podia simplesmente agarrar a garota. Não era assim que as coisas funcionavam. Deveria haver um romance, amor, deveria haver paixão de ambas as partes, mesmo que ela não soubesse que estava ali apenas para serví-lo, apenas para tornar realidade os seus desejos mais secretos.
Ela olhou para ele e sorriu. Ele viu os dentes brancos, perfeitos, e suspirou agradecendo a Deus. Franziu a testa. Que Deus? Ele próprio era um deus, não precisava agradecer a nada, nem a ninguém.
- Vai tomar o ônibus? - disse a garota e só então ele percebeu que seu ônibus já estava estacionado na plataforma.
- Não. Vou ficar aqui até conhecê-la melhor - respondeu sorrindo.
A garota fez uma expressão de estranheza e mostrou um sorriso amarelo.
- Como disse?
- Sempre esperei por você. - disse ele, aproximando-se da garota - A minha vida inteira esperei por este momento. Você é exatamente como sempre imaginei. É a mulher dos meus sonhos.
A garota ficou constrangida. O cachorro no colo dela latiu alto e, assustado, ele se afastou. Ela se levantou, virou-lhe as costas e se atirou nos braços de um rapaz que acabara de descer do ônibus. Os dois se beijaram longamente. O cachorro, apertado entre os namorados, continuava a latir, mas agora parecia satisfeito.
Ele ficou perplexo e continuou sentado, pensando no que havia feito de errado. Aquela cena não deveria estar acontecendo. Não no seu sonho.
Viu o casal se afastar e pôde ouvir o rapaz perguntar “Quem era aquele?”. Ouviu a garota responder “Um maluco qualquer”.
Ficou imaginando o que deveria fazer, mas não fez nada. Talvez o fato de ser um deus não significava que ele era onipotente. Jurou a si mesmo que de agora em diante não iria mais deixar que seu sonho lhe pregasse peças. Ele era Brahma, ele era o motivo da existência das coisas, mas talvez precisasse de um pouco mais de prática nesse negócio de realização de desejos. Olhou para o relógio sem a mínima pretensão de saber as horas. Era um gesto automático, apenas a confirmação da derrota que havia sofrido.
Foi então que percebeu que não podia ver as horas pois não havia mais ponteiros em seu relógio. Com espanto, viu que seu braço estava ficando transparente. Não apenas o braço, como todo o seu corpo, o banco, o ônibus, a rodoviária, as pessoas, tudo. O livro já havia desaparecido por completo.
Tudo que estava às costas da garota estava desvanecendo diante de seus olhos incrédulos.
“Isso não pode ser verdade!” - pensava. Ele era real! Tinha casa, um trabalho, uma vida, um nome!
Qual era mesmo o seu nome? Não se lembrava mais. Sentiu que era difícil manter os pensamentos em ordem e concentrou-se apenas na garota. Ela seguia em frente, abraçada ao namorado e com o cachorro no colo. Ele se levantou e tentou gritar, tentou chamar-lhe a atenção, mas seu grito foi como um sussurro. Tentou correr ao encontro dela, mas não conseguiu dar um passo sequer.
Com tristeza, percebeu que não era ele o sonhador. Ele era apenas um coadjuvante, alguém sem importância, um personagem de pouca monta, um figurante no sonho de outra pessoa. Antes de desaparecer por completo, imaginou que talvez aquela garota fosse o deus Brahma, mas não podia afirmar com certeza.
Podia ser o namorado dela, ou até mesmo o poodle.
Afinal, quem pode saber com o quê sonham os deuses?
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