por Rogério Mendes
A doença tomou conta de mim, porém, a doença por si só, não me incomoda muito. Maior incômodo é causado pelos criados, advogados, parentes, todos enfim, que se aproximam tal qual abutres esperando pela morte da presa. Tranquei-me no quarto. Já não suporto vê-los com olhos ávidos à beirada da cama toda vez que as minhas mãos tornam-se rígidas e meus dedos tornam-se garras, toda vez que meus lábios se contorcem num ricto e meus olhos esgazeiam. O médico receitou-me remédios, mas temo que eles sirvam apenas para abreviar o pouco de vida que ainda me resta. Certa vez, por uma fresta da porta, vi um sobrinho conversando com o médico, e ambos sorriam sorrisos conspiratórios. Confio em médicos tanto quanto confio em sobrinhos, e, por conta disso, não tomo os remédios que me foram receitados. Ainda ontem trouxeram um padre para que me visse e me confessasse, mas recusei-me prontamente, posto que assim que fosse confessado, estaria oficialmente apto a morrer, coisa que me recuso. Então, com certa satisfação, expulsei o padre aos gritos e atirei contra ele o vidro de remédios. Contudo, agora que sinto as minhas forças se esvaírem, acho que vou convidá-los a entrar. Sim, convidarei a todos. Criados, advogados, médicos, sobrinhos, padres e quem mais queira vir me ver. E então, tomarei as mãos deles nas minhas e implorarei por perdão, por absolvição. E beijarei aquelas mãos, e beijarei aquelas faces, e os abraçarei longamente. Assim, quando eu me for, pelo menos a doença permanecerá.
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