Canção da autodestruição

por Rogério Mendes

A música que toca o silêncio toca a sua alma e você conta contos de fadas para os duendes que admiram a beleza dos corpos das mulheres que caem do céu com asas de anjos e rostos de crianças brincando de roda nas ruas da cidade que não dorme nunca enquanto você acende um cigarro e pensa que pode fazer o que quiser da sua vida que é como um sonho ruim ou como se alguém estivesse te observando e contando os dias com choro sincero e piadas sujas e pessoas que você não conhece no seu próprio enterro dizendo que te amam mas não entendem porque você fez aquilo que você não sabe o que é pois não se lembra de nada exceto das mulheres nuas que te seguiam na época em que você era o flautista mágico e do álcool que te faz sentir tão bem e quente e confortável e vivo correndo em suas veias como um veneno que te faz rir e chorar pois você não acredita que acabou de tomar ácido e agora já não sabe mais o que fazer quando o sangue começa a escorrer do seu nariz você só tem tempo de pegar o telefone e ligar para deus pedindo pizza de anchovas e uma nova chance e um cachorro que seja seu amigo e não diga que você não presta e que jogou sua vida fora pela janela que dá para um jardim de violetas e estátuas de mármore as quais você ficou olhando por horas e horas pensando nas mulheres nuas que te seguem mas não existem pois tudo isso é efeito do ácido e do álcool e agora você perdeu o telefone e há um monstro no armário que gosta de recortar as suas revistas prediletas e cuspir no tapete persa da sala e culpar o gato que já não aparece há dias e deve ter morrido atropelado na avenida que te leva até o centro da cidade mas não de ônibus senão as pessoas vão dizer que você é louco e você não precisa que ninguém te diga o que será que está acontecendo agora que começou a chover de novo e seu coração disparou e há dor por toda parte e seu braço esquerdo está pesado e você pensa que vai morrer mas ninguém morre aos vinte e nove anos que você não a vê e imagina se ela ainda está bem depois de todo esse tempo será que ela ainda te ama ou você sente o cheiro de grama mas não sente os seus braços e nem as suas pernas e nem a sua língua por sua própria culpa pois devia ter prestado mais atenção nas aulas de gramática assim podia ter ficado famoso como aquele monte de gente que canta no céu e que nunca te disse o que fazer quando se está sofrendo um ataque cardíaco agora que o monstro do armário está te insultando e pedindo o jornal de hoje que você não comprou porque não tem dinheiro e nem se lembrou de que amnésia seletiva dói demais porque a vida é dor mesmo mas vale a pena quando você pode voar com os anjos de asas enormes que quase tocam as suas e então você começa a cair muito rápido e o medo provoca um frio no seu estômago e você se sente vazio como naquela vez em que ela te deixou sozinho e você teve vontade de morrer mas não morreu porque não deixaram e não souberam te explicar o que acontece com o mundo de hoje quando ninguém mais pode visitar o próprio enterro sem encontrar pessoas desconhecidas e então você chora e toma ácido como se fosse açúcar e rodopia até ficar tonto e cai rindo ao lado das mulheres nuas que te abraçam e fazem carinho nos seus cabelos até que você escuta sem medo o fading da canção da autodestruição e tudo fica escuro e frio e calmo e terno e não resta mais nada, exceto o silêncio.

2 Respostas para “Canção da autodestruição”


  1. 1 Rogério Mendes 11 Abr 2007 às 17:07h

    O conto “Canção da autodestruição” ficou entre os vencedores do I Prêmio Livraria Asabeça, que aconteceu em 2002. Ele foi incluído na antologia comemorativa do evento.

  2. 2 Je 17 Jan 2008 às 13:22h

    Putz, me lembrou demais Giuseppe Berto. Só que mais psicodélico.

    Abraço,

    Jefrinho (hahaha)

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