O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?

por Rogério Mendes

O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?

Pois é, essa é uma boa pergunta.

Não sei quanto a você, mas eu não gosto de ficar sozinho, principalmente nas manhãs de domingo. Pelo menos não gostava naquela época, quando tudo começou. Meus irmãos haviam partido há muito tempo e a solidão mexia com a minha imaginação. Passei uma boa parte daquela manhã pensando numa maneira de acabar com o tédio, e então, criei o céu e a terra. Bem, na verdade não foi tão simples assim, mas não vamos nos concentrar em detalhes técnicos, certo?

O fato é que o céu e a terra estavam prontos, mas ainda faltava alguma coisa, embora eu não tivesse consciência do que era.

A terra era sem forma e vazia, e eu olhava para a face do abismo. Aquilo me incomodava, pois parecia que o abismo também olhava para mim! É claro que essa sensação causou uma reverberação na tessitura da realidade - isso sempre acontece quando eu me surpreendo - e algumas pessoas, algum tempo depois, conseguiram captar as vibrações remanescentes daquele início tumultuado. Eu soube que um certo rapaz conseguiu obter alguma fama por negar a minha existência, apesar de uma de suas frases mais célebres ter nascido justamente daquele meu momento de surpresa. Irônico, você não acha?

Ah, sim, falávamos sobre a terra vazia, a face do abismo, e eu comecei a divagar. Perdoe-me, são coisas da idade…

Pois bem, pensando naquela situação, resolvi criar alguma coisa que me separasse daquilo o que eu havia criado, uma barreira que definisse os limites entre o universo onde eu existia, e aquele que eu acabara de criar. E ainda, eu precisava deixar que houvesse uma maneira de que eu pudesse transcender de um universo para outro. Falar sobre isso é bem mais fácil do que fazê-lo, até mesmo para alguém como eu, mas esses são detalhes técnicos e eu demoraria muito tempo para explicar como essa transcendência é possível.

Para resumir, digamos que eu falei solenemente “Faça-se a luz”, e a luz se fez. Sim, sim, colocando a coisa em termos suficientemente simples e de maneira que você possa entender, foi assim mesmo que aconteceu. E quando eu vi o quê havia criado, percebi que aquilo era muito bom! Fiquei tão contente e empolgado comigo mesmo que dancei.

Tempos depois, aquele mesmo rapaz afirmou que só acreditaria em mim se eu soubesse dançar. Pois é, ele era realmente bom em captar as vibrações remanescentes da tessitura da realidade, mas era teimoso demais para acreditar nelas. O curioso é que bilhões de outras pessoas que não foram capazes de sentir a minha presença, acreditaram e ainda acreditam na minha existência, mesmo que de uma forma distorcida. É claro que isso difere de pessoa para pessoa, pois raramente eu me manifesto duas vezes da mesma maneira, e essa diferença de percepção acaba gerando alguns conflitos, que no início eu me empenhava em resolver. Ah, mas os meus dias de interferência ficaram para trás. Sabe como é, houve uma época em que eu pensava que, se podia fazer esses truques, por que deveria evitá-los apenas para que as pessoas, sem um mínimo de esforço, me compreendessem? Eu achava que, pelo fato de ter criado o mundo, podia fazer dele o que bem quisesse. Pobre de mim. Dentre todos os nomes que recebi, talvez o único que tenha faltado - e talvez o mais acertado - seja “O Ingênuo”, pois foi exatamente isso que eu fui.

“Buscai o que está perto e o que está longe, o que está fora e o que está dentro, e então, certamente me encontrareis”, eu diria, há algum tempo atrás. É, eu gostava dessa coisa de solenidade. Soaria bem, não acha? Ah, mas ninguém entenderia a mensagem! E hoje, mesmo que eu pegasse certas pessoas pelo pescoço e gritasse em seus ouvidos “Eu estou aqui, suas criaturas estúpidas!”, elas não me dariam atenção.

Aham, desculpe-me, estou divagando novamente… Onde estávamos mesmo?

Ah, sim. A luz.

Bem, é basicamente isso. Depois veio a tarde e a manhã do dia seguinte, e o resto você já sabe. Tudo aquilo o que eu criei, infelizmente, acabou se tornando o que é hoje. Não, não estou reclamando. Por favor, não me entenda mal. É só que, às vezes, penso que as coisas poderiam ser um pouco diferentes do que são. Eu era jovem e inexperiente, e fiquei tão excitado com a idéia de criar seres à minha imagem e semelhança que não me dei conta da dor de cabeça que o futuro me reservava. Não posso dizer que tudo tenha saído de acordo com o meu planejamento original, mas esse é o preço pago pelos pioneiros. Talvez eu tenha errado na modelagem de dados, ou na implementação do projeto, sei lá…

Agora já não há mais nada que eu possa fazer. Hein? Destruir tudo e começar do zero outra vez? Ah, não. Já tentei isso também, e não funcionou.

Sabe, aquela sua primeira pergunta me fez pensar em uma outra pergunta que algumas vezes eu faço a mim mesmo. Se você pudesse voltar ao passado com o conhecimento e a experiência que possui hoje, faria as coisas da mesma maneira que já fez, ou agiria de forma diferente?

Não sei quanto a você, mas se naquela manhã de domingo eu soubesse o que sei hoje, com certeza teria ficado na cama até mais tarde.

2 Respostas para “O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?”


  1. 1 Rogério Mendes 11 Abr 2007 às 16:55h

    O conto “O que fazer quando se está sozinho numa manhã de domingo?” esteve entre os escolhidos pelo público visitante do site da Confraria das Idéias, e deveria ter integrado uma antologia que seria publicada pela Editora Viu, mas o livro nunca chegou a sair.

    Agora, mesmo que seja publicada a tal antologia, meu conto não fará parte dela, pois tive um desentendimento sério com os integrantes da Confraria das Idéias e já não colaboro mais com eles, em nenhum nível.

    É triste, mas a vida tem dessas coisas…

  2. 2 Ricardo.Silveira 1 Dez 2009 às 11:50h

    A cada conto me surpreendo mais, daqui a pouco vou montar um fã clube pra você!

    Sobre o seu comentário, tipo assim, no dia do desentendimento você lembra se era uma manhã de domingo?

    Talvez deveria ter ficado na cama até mais tarde…

    Beijo

Deixe um comentário

Você deve logar-se para postar um comentário.