Sabrina

por Rogério Mendes

Sabrina estava sentada numa pedra, desenhando círculos na areia com os pés descalços. O mar à sua frente estava calmo e uma leve brisa fazia com que seus cabelos caíssem em seu rosto.

Ele estava atrasado, como sempre. Ela não se lembrava de uma única vez em que ele tivesse sido pontual, mas isso já não importava.

Ficou pensando na maneira como diria a ele, na maneira menos traumática de dizer que já não o amava mais.

Uma lágrima correu pelo seu rosto, não porque seria um momento triste, mas porque queria amá-lo, queria poder controlar seus sentimentos, queria poder ficar com ele para sempre, mas não podia.

“Não vou chorar na frente dele” - decidiu. E chorou sozinha, enquanto ele não chegava.

Chorou pelos anos em que estiveram juntos, pelos planos que fizeram, pelos sonhos que não realizaram, pelos risos, pelas horas sérias de olho no olho, pelas noites de amor, pelas manhãs de cumplicidade. Chorou porque não o amava mais e porque sabia que ele sofreria por isso.

Levantou-se e caminhou até a água. A areia sumia debaixo de seus pés enquanto pequenas ondas batiam em seus tornozelos. O vento havia aumentado e seus cabelos esvoaçantes colavam em seu rosto molhado pelas lágrimas. Havia um vazio enorme em seu peito e ela olhou para as próprias mãos. Não acreditava que essas mesmas mãos um dia haviam segurado carinhosamente o rosto dele, enquanto ela dizia “eu te amo”. E lembrou das mãos dele em seu corpo. Lembrou do gosto suave de sua boca e do cheiro dos seus cabelos.

Aquilo havia passado. Agora, era apenas recordação. A lembrança daqueles momentos era tudo o que restara do amor que haviam vivido.

“É melhor assim” - pensou.

Era bom que lembrasse dele com carinho, já que não o amava mais. E como ele se lembraria dela? Lembraria desse dia na praia, quando ela negou o amor que ele oferecia?

Desejou sinceramente que ele se lembrasse dela com esse mesmo carinho que sentia agora, mas sabia que isso não aconteceria. Conhecia-o bem demais, melhor do que ele próprio se conhecia. Ele lembraria dela com mágoa, pelo fato de que ela era incapaz de amá-lo da mesma maneira que ele a amava. Saber que ele ficaria magoado doía fundo em seu coração, mas ela nada podia fazer. Não podia fingir, não podia mentir. Não para ele.

“Ainda assim” - prometeu para si mesma - “não vou chorar na frente dele”.

Virou as costas para o mar e percebeu que um homem caminhava em sua direção.

Não era ele.

- Sabrina… - disse o homem que também tinha lágrimas nos olhos - Ele não vem.

* * *

No dia do funeral, ela ficou o tempo todo ao lado do caixão. Pessoas e mais pessoas tentavam em vão consolá-la, mas ela não conseguia prestar-lhes atenção. Tudo o que conseguia fazer era lembrar daquelas mãos em seu corpo, do gosto suave daquela boca, do cheiro daqueles cabelos, e de todas as coisas a respeito dele, as quais jamais teria novamente.

E não conseguiu cumprir sua promessa. Ali, em frente ao caixão aberto, com olhos fitando o nada e um vazio enorme no peito, Sabrina chorou.

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