por Rogério Mendes
Era por volta de uma da madrugada quando Kátia Duran chegou ao Santeria, acompanhada por um jovem vestido num terno marrom impecável. O bar estava cheio àquela hora, com a nata do submundo, como de costume. Havia motoqueiros barulhentos, bebendo e gritando uns com os outros, tipos suspeitos procurando por alguém que os contratasse para algum trabalho sujo, vendedores de todos os tipos de coisas ilícitas negociando calorosamente com seus fregueses e montes e montes de punks pulando e gritando ao som de alguma banda de rock alternativo.
A banda daquela semana era o Screams & Whispers e apesar dos músicos serem bons, Kátia achou sofrível a performance do vocalista de ar andrógino que alternava gritos lancinantes e sussurros, ao microfone.
A garota caminhou até o balcão, seguida pelo rapaz que a acompanhava.
- Chango! Chango! - ela teve que gritar para que o barman a escutasse em meio ao barulho do bar.
- Hola, Kátia. Que passa, ese? - disse o barman, enquanto lhe servia um copo de tequila.
A garota levantou o copo como num brinde, bebeu de um gole, bateu o copo no balcão e limpou a boca com as costas da mão. O barman abriu um sorriso de dentes metálicos e pontiagudos.
- Procura por Sal? Ele está esperando, ese! - disse, apontando para uma mesa no fundo do bar onde havia um homem parcialmente oculto pela sombra de uma escada que levava ao andar superior, onde outros tipos de diversão eram praticados.
- O que ele fez nos dentes? - perguntou o rapaz, gritando para ser ouvido, enquanto os dois dirigiam-se para o fundo do bar.
- Chango? Alguns anos atrás, alguém quebrou os dentes dele. Ele jurou que ninguém os quebraria novamente.
- Nenhuma clínica corporativa colocaria dentes metálicos num homem!
- Clínica corporativa? Ha! Em que mundo você vive, cara? - perguntou a garota, balançando a cabeça em negativa. O rapaz pensou em responder qualquer coisa, mas ela já não lhe prestava atenção.
- Sal? - perguntou a garota quando estava próxima o suficiente para que o homem a ouvisse. A mesa dele estava afastada o suficiente da algazarra para que mantivessem uma conversa num tom confortável.
O homem mantinha inclinada a cadeira na qual estava sentado, apoiada na parede e nas pernas de trás. A cabeça estava recostada na parede e os olhos fechados. Quando ouviu a garota, com um movimento suave do corpo, colocou lentamente a cadeira na posição normal e saiu da sombra da escada.
O rosto estava pálido e molhado de suor, assim como os cabelos. Tinha uma garrafa de aguardente em uma mão e um cigarro quase no filtro na outra. Um delicado cabo de fibra ótica saía de sua têmpora e estava ligado a um computador portátil, em cima da mesa. Ele vestia terno e gravata pretos e a camisa branca tinha uma mancha vermelho-escura na altura do peito.
- Você demorou - disse ele, enquanto desconectava o cabo de sua têmpora.
- Sal! O que aconteceu ? Você está um lixo!
- Também te amo, Ká.
Sal jogou o toco de cigarro no chão e tirou outro do maço de Marlboro que estava no bolso. O papel da embalagem, normalmente vermelho e branco, tinha manchas escuras.
- Quem é o babaca? - perguntou, depois de acender um cigarro manchado de sangue.
- É jornalista. Famoso. Disse alguma coisa sobre um amigo dele ter te contratado. Salvattore Petri, Fábio Costa. Fábio Costa, Salvattore Petri. Sal, tem certeza que você está bem?
- Olá Sr. Petri. Aqui está minha identificação - disse Fábio mostrando um cartão plástico da World News Service, com seu nome e um holograma do seu rosto gravados nele - Gostaria de falar com o senhor, mas talvez esse não seja o momento adequado. Vejo que o senhor está ferido! Eu, eu posso voltar depois…
- Não Sr. Jornalista, sente-se - disse Salvattore, apontando uma cadeira - Kátia, eu preciso de hardware, e é meio urgente.
- Sal, você vai ou não vai me contar o que aconteceu? - disse a garota ao sentar-se - Você está sangrando, cara!
Sal colocou a garrafa sobre a mesa e fez um carinho nos cabelos da garota. Olhou nos olhos de Fábio enquanto ele sentava. O rapaz parecia um bocado perturbado pela visão de sangue. Sal não gostava de gente que se perturbava facilmente, mas esse era só mais um motivo para não gostar do jornalista. Também odiava tudo o que o rapaz representava. A desigualdade social promovida pelas corporações, a mentira e alienação dos meios de comunicação, a manipulação das massas. Odiava os ricos, enfim. Entretanto, sentia um pouco de pena do rapaz, porque assim tão sensível, ele não ia durar muito tempo no mundo real, não ia durar muito tempo em CyberSampa.
Sal sempre vivera nas ruas e aprendera tudo sobre o submundo da pior maneira, da única maneira possível. Sobrevivendo. E o que aprendera de melhor era como se esconder na Rede, como fugir de seus problemas para o único lugar justo em todo o mundo, pelo menos para ele. Um lugar onde Sal tinha poderes quase ilimitados, e era como um pequeno deus. Um hacker, um invasor de computadores. E dos bons.
- Você conhecia Jean-Paul Duchat, Sr. Jornalista? Eram amigos?
- Sim, pode-se dizer que somos amigos.
- Meus pêsames, então. Duchat está morto.
- Que diabo está acontecendo, Sal? - disse a garota.
- Preciso de hardware, Ká. Um novo coração blindado, algumas costelas e pele de cultura, e também uma boa dose de nanorobôs.
- Isso vai ficar caro, mas posso conseguir. Quer endorfina para a dor? - disse a garota tirando uma seringa de ar comprimido de dentro de um bolso do casaco de couro sintético.
- Enquanto eu sentir dor, Ká, sei que ainda estou vivo - disse Sal - e sei que ainda sou humano.
- Quanto tempo na bateria de emergência? Digo, para o coração.
- Três horas.
- Dá tempo. Vamos.
- Ei, espera aí! Ainda eu estou bebendo à memória de Jean-Paul Duchat e preciso fechar um negócio com o meu amigo, o Sr. Jornalista.
- O que você tem para mim? - perguntou Fábio, tentando esconder a insegurança de sua voz.
- Hardware e Software. “O” Hardware e “o” software. Aquilo que todas as corporações estiveram pesquisando nos últimos dez anos e não chegaram a lugar algum. Todas exceto uma.
- Sobre qual pesquisa, exatamente, estamos falando?
- Você sabe como funciona um computador, amigo? Tudo se resume numa só coisa: Computadores executam ordens. Alguns executam bem, outros nem tanto, mas eles têm que executar ordens. Foram criados e programados para isso. Não podem ir contra a sua natureza, contra a sua programação. Mesmo os computadores dotados de inteligência artificial têm que seguir sua programação, ainda que entrem em conflito com os seus interesses e sua consciência. Por isso, computadores são os escravos perfeitos. Nunca questionam, nunca reclamam, são completamente controlados e executam apenas aquilo que os programadores ordenam. Eu sei muito bem disso. Sou um programador.
- Sim, eu sei, Duchat me falou.
- Falou é? Pobre Duchat. Morreu sem ao menos saber o que o atingiu. Quer saber uma coisa engraçada a respeito da vida? A vida sempre acaba. As pessoas sempre morrem. É como naqueles video-games antigos em que cada vez que você ganhava, a máquina aumentava a velocidade do jogo até que fosse impossível ganhar. No fim, todo mundo morre. E quer saber uma coisa engraçada a respeito da morte? Não importa se você morre por dois dólares da Microsoft ou por dois milhões de yenes da Sony. A morte não é sensível a diferenças monetárias. Mas eu sou. Duchat morreu por uma coisa que vale muito dinheiro, e estou aqui, todo estropiado. E eu quero dinheiro, muito dinheiro.
- Antes de discutirmos qualquer quantia monetária, eu gostaria de saber o quê, exatamente, você tem pra mim.
Kátia ouvia a conversa entre os dois homens com interesse. Iria cobrar pelo equipamento que venderia a Sal de acordo com a quantia que ele conseguisse arrancar do jornalista, mas o jovem estava recobrando a autoconfiança e parecia não estar disposto a pagar nada além do estritamente razoável, o que quer que isso significasse para ele.
Salvattore deu uma longa tragada em seu cigarro e Kátia notou um espasmo quase que imperceptível em seu olho esquerdo. “Deve estar sentindo muita dor” - a garota pensava - “Se continuar assim pode entrar em choque a qualquer momento, e aí, era uma vez a grana”.
Sal olhava diretamente para o jornalista, que agora devolvia o olhar.
- Bem, como ia dizendo, controle é a tecnologia final. As corporações controlam os computadores, que controlam as corporações. Todo mundo que usa um computador está preso a esse círculo vicioso. Porém, algumas pessoas privilegiadas ainda se mantém à margem disso tudo. Eu, por exemplo, sou uma delas. Não sou filiado a nenhuma corporação, embora às vezes trabalhe como free-lancer para algumas. Muita gente faz esse tipo de coisa, mas as corporações não acham que isso seja razoável. Segundo a maneira de pensar dos executivos da alta roda, ninguém deveria ter liberdade de pensamento, ninguém deveria ter liberdade de escolha. Esses homens acham que só as corporações podem decidir o que é melhor para mim e para você. E nós deveríamos aceitar isso sem ao menos pestanejar. Quem não aceitar de bom grado o controle exercido pelas corporações, deve ser forçado a isso. Durante muito tempo, eles sonharam em controlar as pessoas da mesma forma que controlam os computadores. E agora, conseguiram projetar o instrumento final de controle.
Salvattore tirou do bolso um pequeno círculo de plástico amarelo, do tamanho de uma moeda, e jogou-o em cima da mesa.
- MCC. Módulo de Controle Cerebral Versão 1.3 Beta. Com os cumprimentos da Taniguchi-Hernandez Technologies. Quero dez milhões de Sony’s por ele. O dinheiro deve ser distribuído entre vinte contas na rede. Se você aceitar, te dou os números e códigos de acesso.
- Dez milhões de Sony’s! - exclamou Kátia, e assobiou.
- Já ouvi falar sobre o MCC, sr. Petri, mas achava que era uma lenda - disse Fábio, branco como leite. Agora o rapaz estava visivelmente perturbado.
- É. A Taniguchi-Hernandez preferiu que isso ficasse encoberto, mas Duchat descobriu tudo, com a ajuda de alguém de dentro. Ele decidiu roubar a tecnologia e vendê-la pelo melhor preço. Essa foi a invasão mais difícil que pratiquei em toda a minha vida, e a mais arriscada também. Não bastava roubar apenas o software. Tivemos que invadir fisicamente a sede da Taniguchi e Duchat morreu durante a fuga. Eu também teria morrido, não fosse por meu coração blindado e os nanorobôs de regeneração. Esse foi um trabalho digno da minha aposentadoria, e você, sr. Jornalista, deve estar se perguntando por quantos milhões irá vender essa maravilha, quando uma reportagem sua for ao ar, explicando o quê esta tecnologia hipotética é capaz de fazer. Quem sabe a própria Sony não mostre interesse?
- Por que você mesmo não vende para eles? Por que precisa de mim?
- Oh, eu não! Eu nunca poderia. Sou um rato, compreende? Vivo no submundo, vivo nas ruas, nos esgotos e nos lugares mais obscuros da rede. Nenhuma grande corporação compraria isto de mim, pois nunca teria certeza de que eu não fiz uma cópia ou adulterei o conteúdo. Provavelmente eles me matariam e ficariam com o MCC de qualquer maneira. Mas você é diferente. Você é respeitável, possui os meios de comunicação à sua disposição, você é o Senhor Jornalista! Você pode jogar uma isca e fisgar peixes grandes.
- Mas não tenho dez milhões de Sony’s!
- Imaginei que não tivesse. Vamos fazer o seguinte, eu deixo o MCC com você em consignação. Você o vende por quanto quiser, e só depois, me paga os dez milhões. Combinado?
- Como sabe que eu vou te pagar, depois que vender a mercadoria? Como pode ter tanta certeza sobre a minha honestidade?
- Ah, você vai me pagar. A menos que queira fazer companhia para seu amigo Duchat. Nem todo dinheiro do mundo o colocaria a salvo de mim, sr. Jornalista, porque eu não me importo nem um pouco sobre como a sua morte iria repercutir nos meios de comunicação.
- Temos um acordo então - disse o jornalista, estendendo a mão para um cumprimento.
Sal apertou-lhe a mão, mas quando foi soltar, percebeu que o outro continuava segurando. Os olhos do rapaz ficaram vidrados e ele tirou uma pistola disruptora de dentro do paletó. Tudo parecia estar acontecendo em câmera lenta e Sal não podia acreditar no que estava vendo. Aquele homem iria atirar nele! Por quê? Será que era estúpido o bastante para imaginar que o disco de plástico que estava sobre a mesa tinha algum valor sem os dados que Sal implantara em seu próprio cérebro, momentos antes daquele encontro? Num lampejo, entendeu a situação. Atirou-se ao chão, evitando o tiro silencioso por um triz. O rapaz, com os olhos de um zumbi, mirou novamente. Caído ao chão e preso que estava por aquela mão de força descomunal - aparentemente adquirida nos últimos segundos - Sal não poderia escapar de um novo tiro. De repente, a cabeça do jornalista explodiu e o corpo caiu inerte, ao lado de Sal.
- MERDA! VOCÊ TINHA QUE ATIRAR NA CABEÇA? - gritou ele para Kátia, enquanto se esforçava para soltar-se do cadáver.
Os freqüentadores pararam por um instante para ver a agitação no fundo do bar, mas logo voltaram a cuidar de suas próprias vidas.
- Agora a unidade MCC implantada nesse idiota está danificada! - continuou Sal - Podia ser um modelo diferente! Uma versão atualizada!
- Oh, me desculpe por ter salvo a sua vida! - disse a garota, forçando a voz para que parecesse afetada. Ela abaixou-se e encostou a mão levemente no ferimento do peito de Sal. Seus dedos ficaram molhados de sangue fresco.
- Seus ferimentos abriram. Precisamos ser rápidos agora.
Chango havia saído de trás do balcão e estava em pé ao lado deles, olhando o cadáver em seus últimos espasmos. Sangue e miolos escorriam do que restava de sua cabeça.
- Quem te quer muerto desta vez, güey?
- Taniguchi-Hernandez, eu acho - disse Sal, enquanto levantava vagarosamente e pegava a unidade MCC e seu computador de cima da mesa.
- E quanto eles estão pagando, ese?
- Muito mais do que eu vou pagar para você se livrar do corpo - disse Sal, sorrindo com dificuldade por causa da dor que sentia.
- Dinheiro não é tudo, vato.
- Não. Definitivamente, dinheiro não é tudo.
- Hasta la vista! - disse Chango que começava a arrastar o cadáver pelos braços, enquanto Salvattore e Kátia já saíam pela porta dos fundos do bar.
- E agora? - disse a garota, quando chegaram à rua.
- Hardware. E rápido. E também uma daquelas suas injeções para a dor. Aquele lance de sentir dor para sentir-me humano tem limite, sabia?
- Sim, mas e agora? - disse a garota enquanto aplicava uma dose de endorfinas em Sal - Para quem vai vender?
- Não sei. Talvez eu venda para alguma inteligência artificial. Pelo menos elas não vão tentar me matar por isso. Sabe, eu menti quando disse que as IAs eram controladas pelas corporações. Elas podem fazer o que bem entenderem, inclusive transferir dinheiro de várias contas, sem que ninguém note. O problema é fazê-las entender o motivo pelo qual preciso do dinheiro e porque isso deve ser feito às escondidas, já que a realidade virtual não tem uma interação direta com a vida real, do ponto de vista delas. Para as inteligências artificiais, o dinheiro não é nada além de dados e quantidades abstratas de comparação, mas com o MCC, a coisa muda de figura. Elas estariam acessando o nosso mundo, poderiam usar um ser humano como periférico de entrada na nossa realidade.
- Você ficou louco? Vai dar aos computadores o controle sobre seres humanos?
- E por que não? É menos imoral que humanos tenham controle absoluto sobre outros humanos? O que você acha que a Taniguchi-Hernandez faria com o MCC? Você viu o que eles acabaram de fazer com aquele pobre coitado! Eu não faço as regras desse jogo, Ká, apenas tento me manter vivo da melhor maneira possível. Não existe um ganhador no final, apenas sobreviventes.
- A vida não é um jogo! - protestou a garota - Quando é que você vai compreender isso?
Sal não respondeu. A dor ainda o incomodava e ele não estava com ânimo para discutir com Kátia. Enquanto se encaminhavam para a clínica que trocaria seu coração artificial, Sal ficou pensando no absurdo mundo em que vivia. Como poderia não ser um jogo? Mate para não morrer, roube para poder comer. Encontre as brechas e falhas no sistema ou então seja engolido pelas grandes engrenagens da máquina. Tome para si tudo o quanto puder, ou então aceite as migalhas e restos oferecidos pelas corporações. Seja um renegado, mas que esse seja o motivo de seu orgulho. Seja um pária, mas seja livre, e acima de tudo, continue vivo.
“Sim, a vida é um grande jogo sujo, afinal” - ele pensava - “E queira ou não, Salvattore Petri é um jogador”. Sendo assim, não lhe restava muita escolha a não ser continuar jogando. E sobrevivendo.
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