Predadores

por Rogério Mendes

- Eu preciso de você - ela disse olhando nos meus olhos e em seguida mordeu o lábio inferior.

Fiquei constrangido com aquela declaração e olhei para as pessoas à nossa volta, no bar onde bebíamos tranqüilamente. Ninguém parecia nos notar, e se notavam, não pareciam se importar conosco. Na verdade ninguém se importava com nada ou ninguém nesta imensa e louca cidade.

Tanto melhor que seja assim - pensei e sorri para ela, erguendo a taça de vinho em um brinde - Eu também preciso de você - falei, pensando nas implicações daquela frase e sorvendo a bebida que deixava um gosto acre em minha boca.

Eu sentia como se já a conhecesse profundamente, mesmo estando ali a apenas pouco mais de uma hora. Havia algo familiar em sua voz rouca, em sua pele de uma brancura incomum, em seus olhos escuros, tudo enfim. Algo que eu conhecia muito bem, mas fazia questão de manter escondido de todos, inclusive de mim mesmo. Então eu senti medo, dela e de mim. Medo do mal que causaríamos, um ao outro.

Entretanto, a beleza daquela mulher fazia com que esquecesse quem eu realmente era ou quem ela poderia ser. Fazia eu me sentir leve, como se me importasse com coisas como carinho, felicidade e amor. Estes sentimentos eram novos e maravilhosos para mim, portanto tentei desesperadamente agarrar-me à suposição de que aquela mulher não era o que eu pensava que fosse. Eu sabia que o que quer que fosse acontecer entre nós, a esta altura já era inevitável e deixei que o destino decidisse por mim.

Conversamos muito. Ela era estrangeira e tinha um sotaque difícil de identificar. Conhecia muito sobre muitas coisas, mas sempre deixava que eu conduzisse nossa conversa. Convidei-a para ir a um lugar mais calmo e ela me respondeu com um sorriso muito amplo, nem inocente, nem malicioso. Então eu pude jurar que seus olhos brilharam - um lampejo frio de luz vermelha.

São as luzes do bar - tentei convencer a mim mesmo - São só as luzes refletindo em seus olhos.

Durante o caminho até meu apartamento, continuamos nossa conversa, até um momento em que ela envolveu meu braço com os seus e recostou a cabeça em meu ombro. Naquele momento senti que poderia deixar para trás todos os meus problemas, que poderia começar de novo a partir daquele ponto, junto daquela mulher, compartilhando uma vida.

Poderia ter mudado a minha natureza, se ela também mudasse a dela.

Chegando ao meu apartamento, abri a porta e entrei. Ela permaneceu do lado de fora.

- Não vai me convidar para entrar? - ela perguntou sorrindo.

- Oh, desculpe, é claro, entre, por favor.- eu disse, embaraçado pela minha falta de educação - Desculpe a minha indelicadeza. Entre, por favor.

Ela sorriu outra vez e eu me senti extremamente triste, pelo que estava para acontecer. Fechei a porta enquanto ela se sentava no sofá.

- Quer mais um drink? - perguntei. Ela balançou a cabeça em negativa e estendeu os braços, para que eu fosse até ela.

- Eu preciso muito de você. - ela disse - De verdade. Venha.

Sentei-me ao seu lado, deixando que ela pensasse que tinha o controle da situação. Mesmo naquele momento de extremo perigo para mim, eu me mantinha alheio aos verdadeiros motivos que me levaram a convidá-la ao meu apartamento. Eu só conseguia pensar em paixão e vida, em carinho e cumplicidade.

Ela beijou-me na boca, um beijo longo e apaixonado. Eu correspondi concluindo que, mesmo sendo frios, seus lábios eram um refúgio aconchegante. Ela então afastou minha cabeça para o lado e começou a me beijar no pescoço. Um arrepio percorreu minha espinha e eu não pude conter um gemido de prazer. Quando senti a mordida, todas as minhas esperanças e sonhos ruíram e eu só consegui lamentar, por tudo o que havia perdido, sem ao menos conquistar.

Segurei os pulsos dela com força e deixei que, por um breve momento, ela continuasse a sugar o meu sangue.

Quando se deu conta de que eu não era humano seu rosto tomou uma forma angulosa, sua boca não era mais do que um risco vermelho em meio a brancura de sua pele. Meu sangue escorria de seu queixo.

Toda beleza a havia deixado e agora ela não era mais aquela linda mulher com quem eu gostaria de estar. Agora, para qualquer ser humano, ela seria um monstro, um ser saído dos piores pesadelos imagináveis. Uma vampira.

Para mim, ela era apenas comida.

Eu lhe mostrei minha verdadeira forma e uma onda de terror a atingiu. Seus olhos se arregalaram e ela tentou furiosamente escapar, mas eu a mantinha firmemente presa pelos pulsos.

Tentou gritar, então apertei seu pescoço com uma das mãos, cravando minhas garras profundamente, e puxei com violência, arrancando parte de sua traquéia e cordas vocais.

Ela tinha pouco sangue, sinal que não vinha se alimentando bem.

Levei o pedaço de carne até a boca e mastiguei sem pressa, enquanto o ar que saía pelo buraco da sua garganta fazia um barulho estranho, com o esforço que ela fazia para gritar. Seu rosto era uma máscara de puro pânico e sua boca tentava em vão articular palavras, provavelmente de súplica.

Segurei firme o seu pescoço com uma mão, enquanto que com a outra torcia e puxava seu braço, num esforço para quebrar seus ossos. Com um último puxão arranquei seu braço na altura do ombro. Ela perdeu os sentidos, mais pelo choque de ver o braço arrancado do que de dor. Deixei que ela escorregasse até o chão.

Ah, sim, eu sou carnívoro, sou um predador. Mas não um predador comum, nada disso. Há eras atrás eu fui amaldiçoado e minha existência transformada numa agonia terrível. Para continuar existindo, preciso cometer esses atos de violência, que para muitos pode parecer uma monstruosidade. Desde que fui transformado no que sou hoje, só caço vampiros. Não sei exatamente porquê faço isso. Talvez seja o monstro em mim, clamando pela vida de outros monstros. Talvez seja só ecologia.

Sou um predador de predadores. Sou a grande criatura da noite. Sou o topo da cadeia alimentar.

E estou sozinho.

Algumas vezes eu gostaria de ser um simples ser humano, com suas paixões, suas fraquezas, com toda a capacidade de amar que estes ridículos seres possuem e que a mim foi negada.

Peguei o corpo desfalecido e coloquei-o dentro de um pequeno caixão, escondido sob a mesa de centro da sala.

De um vaso da cozinha, trouxe uma rosa branca que coloquei sobre o caixão, não antes de sentir o seu suave perfume. Na rosa eu havia preparado um ritual antigo e poderoso que impediria que ela escapasse de lá quando eu não estivesse em casa. Infelizmente lhe causaria dor e agonia terríveis, mas não havia nada que eu pudesse fazer a esse respeito.

Era uma lástima que ela fosse tão bonita, um verdadeiro desperdício.

Lamentei por não podermos continuar fingindo um para o outro, e para nós mesmos.

Era pena que, já que não possuíamos vida, não pudéssemos sequer imitá-la.

Senti compaixão por ela, mas o sentimento foi logo abandonado quando imaginei que ela não sentiria nenhuma compaixão, se eu fosse a sua vítima. Levei a mão ao pescoço. Já estava quase regenerado.

- Sou um predador - lembrei.

E continuei a comer com prazer o braço fino e delicado que trazia em minha mão.

3 Respostas para “Predadores”


  1. 1 Cinthia Molina 24 Abr 2007 às 11:03h

    Muito bom esse…

    Você tem que publicar seus contos logo!

    Beijos

  2. 2 Ricardo.Silveira 1 Dez 2009 às 11:56h

    Esse é o melhor de todos!

    Foi o primeiro?

    Algumas pessoas tem medo de vampiros, lobisomens, demônios, múmias, e por aí vai…

    Eu tenho medo de predadores e ao mesmo tempo os admiro.

    Parabéns, meu!

    Beijos

  3. 3 Rogério Mendes 1 Dez 2009 às 13:14h

    Não foi o primeiro, não.

    Dos que estão publicados neste blog, o conto “As Estrelas” foi o primeiro a ser escrito.

    Mas voltando a este conto, provavelmente vou escrever mais alguma coisa sobre os predadores, algum dia…

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