por Rogério Mendes
Estou numa festa. Numa daquelas festas de traje a rigor, onde as pessoas ricas bebem champanhe e discutem a arte ou as oscilações da bolsa de valores. O tipo de festa para a qual um cara como eu jamais seria convidado. Há um pianista tocando músicas clássicas, o tipo de música que todo metido a erudito conhece ou diz conhecer, mas que nada significam para mim. Estou usando um smoking, o tipo de roupa que eu nunca usaria. As pessoas estão rindo e conversando à minha volta, embora eu não saiba o quê elas estão festejando ou porquê estou aqui. Sinto-me completamente deslocado, mas o que mais me intriga é o fato de alguém dar uma festa num lugar como este.
O salão de festas é muito amplo e cheio de esculturas terríveis, como corpos mutilados, monstros, demônios e coisas do gênero. O chão é coberto por um carpete vermelho escuro, que me lembra sangue coagulado, e as cortinas de veludo que cobrem as janelas são totalmente negras, como se imitassem uma noite sem lua. As paredes estão descoradas, e a tinta, que outrora provavelmente foi branca, está descascada em vários pontos, mostrando tijolos úmidos e cheios de musgo. No meio do teto há um enorme lustre de ferro cuja forma é como um milhão de garras voltadas para cima. Um cheiro frio de bolor impregna minhas narinas e não me sinto bem neste lugar. A atmosfera me sufoca, me oprime de modo que sinto uma angústia no peito, e a incômoda sensação de que todos à minha volta estão me observando.
As mulheres da festa riem escandalosamente enquanto os homens sorridentes cochicham palavras, provavelmente obscenas, em seus ouvidos. Alguns apontam casualmente em minha direção e riem ainda mais. Sim, agora sei que me observam. Meu único desejo é sair deste lugar, mas não consigo me lembrar de como foi que cheguei até aqui. Tento afrouxar o laço da minha gravata, mas não consigo, e isso faz com que alguns dos presentes riam às minhas custas.
Todos parecem conter uma enorme expectativa em relação a mim, e isso me confunde. De vez em quando alguém me olha fixamente, como se esperasse que eu falasse ou fizesse alguma coisa, ou como se eu tivesse respostas para perguntas que nem mesmo foram formuladas. Pessoas que nunca vi e que agem como se me conhecessem, tratam-me com reverência ao mesmo tempo em que zombam de mim. Devo estar ficando louco. Tenho muita sede e a maldita gravata está me sufocando.
Vários garçons distribuem taças de bebidas às pessoas, mas parecem evitar até mesmo passar perto de mim. Com um gesto eu chamo a atenção de um deles para que me traga alguma coisa para beber. Ele concorda com a cabeça e sai do salão por uma porta lateral. Uma porta que não estava lá alguns segundos atrás e que desaparece novamente assim que o garçom passa por ela! Sim, agora tenho certeza de que estou ficando louco!
As pessoas continuam rindo, conversando e eventualmente apontando para mim. Um homem de cabelos louros, que de alguma forma me parece familiar, aproxima-se de mim. Sinto então uma estranha sensação de déja vù. Sinto que já estive neste lugar e já falei com este homem, mas não me lembro quando, ou em quais circunstâncias isso aconteceu.
- Que lugar é este? - pergunto para ele, sem tentar disfarçar a minha confusão.
Ele sorri e fala de modo afetado, alto o suficiente para que as pessoas à nossa volta possam ouvir.
- Que lugar é este? Então o nosso anfitrião não reconhece a própria casa? Meu amigo, sua festa está ótima! Que lugar é este, com efeito!
O louro afasta-se rindo e engasgando com o champanhe que estava bebendo. Todos gargalham vulgarmente e eu sinto como se o chão fosse abrir sob meus pés. Minha casa, ele disse, minha festa, mas isso não pode ser verdade!
Não posso imaginar quem são essas pessoas e muito menos como esta poderia ser minha casa. Sinto-me cansado e olho à minha volta a procura de um lugar onde possa me sentar, mas não encontro nenhum. Não existem móveis aqui, só as hediondas esculturas que causam verdadeiro fascínio nos presentes nessa festa de dementes. Eu caminho até uma das esculturas e percebo com horror que, gravado numa placa de metal presa ao pedestal de mármore, está o meu nome.
O garçom volta, e ao invés de algo para beber, me entrega um envelope grande e pardo, endereçado a mim. Abro o envelope e dentro dele encontro uma fotografia. É uma foto antiga, em preto e branco, e ela me faz lembrar nitidamente de uma ocasião que aconteceu cerca de vinte atrás, quando eu ainda era uma criança.
Certo dia, quando eu voltava da escola, um cão me atacou. Não era um cão muito grande, mas me assustou um bocado quando mordeu minha perna, rasgando minha calça. Corri, e o cão me perseguiu com uma obstinação cega. Cheguei ao portão velho e enferrujado da minha casa, porém este estava trancado. Desesperado, tentei galgá-lo, mas o cão mordeu novamente a minha calça rasgada e começou a me puxar para baixo. Tentei escapar de todas as maneiras, e então uma das barras de ferro do portão a que eu me agarrava tentando subir cedeu sob o meu peso e soltou-se, ficando em minhas mãos. O medo, o terror irracional de ser atacado por aquele animal tomou conta de mim. Sem ao menos pensar no que estava fazendo, golpeei-o com toda a força que o pânico pode produzir em um garoto de dez anos de idade. Atingi-o na base do pescoço, que foi partido num estalo. O cão caiu com um único ganido e começou a se debater, com a vida esvaindo-se de seu corpo. Em poucos segundos estava inerte, com os olhos vidrados e com um filete de sangue escorrendo pelo focinho.
Lembro-me do incidente, mas não da foto. Não havia ninguém comigo na ocasião e o único que viu o cão depois de morto foi meu pai, quando se livrou do corpo, mas não acredito que o velho teria o trabalho de fotografar o cachorro morto. Por que alguém faria uma coisa dessas, afinal?
Uma mulher ruiva, pálida e com olhos verdes muito brilhantes, aproxima-se e olha a foto com interesse.
- Ótimo trabalho! - ela sussurra em meu ouvido.
- Não fui eu quem tirou esta fotografia! - digo, indignado.
- A foto não, o cão - diz ela, sorrindo - Realmente, você fez um ótimo trabalho com ele. Alguns diriam que não foi uma de suas melhores obras, e alguns diriam até que foi simples demais, mas devido às circunstâncias, devido à espontaneidade, eu o considero como um dos seus melhores trabalhos! Ainda mais sendo o primeiro!
Ela toma a fotografia de minhas mãos e mostra aos outros presentes. Eles murmuram entre si, com grande admiração. Então começam a me aplaudir, alguns assobiam, outros apertam minha mão e dão tapinhas em minhas costas, cumprimentando-me. As pessoas se aglomeram ao meu redor, querendo me tocar, tratando-me como se eu fosse uma espécie de herói ou ídolo. Aquilo me causa uma profunda repugnância e, horrorizado, tento fugir daquelas pessoas, mas elas me cercam por todos os lados. O homem louro aparece de repente em meio à multidão e me segura pelos ombros.
- Ah, já vai? Tão cedo? Não antes de nos mostrar o seu trabalho mais importante, aquele para o qual você vem se preparando há anos, a sua obra-prima!- diz ele apontando para o envelope em minhas mãos - Mostre-nos do que é capaz, Modelador da Carne!
A fotografia que tiro do envelope, me choca tremendamente. É uma foto em preto e branco de uma mulher, caída no chão, nua. Há sangue por toda parte. O abdome foi aberto desde a virilha até o plexo solar e suas entranhas foram cuidadosamente retiradas e colocadas ao seu lado. Os braços e pernas foram quebrados em vários lugares e fazem ângulos impossíveis com o corpo. Os cantos dos lábios foram cortados até às orelhas, os dentes foram quebrados e a língua foi fendida ao meio. Seus olhos foram arrancados e também colocados cuidadosamente ao lado do corpo.
Eu levo alguns segundos para perceber que a mulher da foto é a minha esposa.
A ruiva novamente toma a foto das minhas mãos e a entrega às pessoas que se acotovelam à minha volta. Novamente elas me aplaudem, agora freneticamente. Algumas pessoas gritam o meu nome, outras me colocam sobre os ombros e carregam-me pelo salão, como se eu estivesse num desfile triunfal. Não consigo me conter e começo a chorar.
Minha esposa está morta! E eles dizem que fui eu quem a matou!
- NÃO! - eu grito - NÃO FUI EU! EU NÃO FIZ AQUILO!
O louro sorri mostrando dentes amarelados.
- Não, meu amigo, não fez. - ele diz calmamente - Ainda não.
* * *
Acordo sobressaltado, com o corpo banhado em suor. Ao meu lado minha esposa dorme profundamente. Tiro a fronha do travesseiro e enxugo meu rosto com o ela. Minha boca está seca, e então tomo o copo de água que havia deixado sobre o criado-mudo. Um sonho, eu penso, o mesmo sonho recorrente outra vez.
Deito de lado. Olho o relógio. Passa das três horas da madrugada. Sei que não vou conseguir dormir de novo. Deito de costas e olho o teto por um longo tempo. Me viro e olho para a minha esposa, tão tranqüila em seu sono que parece estar sorrindo. Linda. Ela é linda. Eu me levanto com um suspiro.
Caminhando cegamente pela casa no meio da noite, percebo que cheguei à garagem, onde pego as ferramentas necessárias para concluir meu trabalho, já que não posso mais dormir. Pego as fotografias que mantenho escondidas, longe dos olhos curiosos da minha esposa. São verdadeiras obras de arte, mas estão incompletas. Ainda falta-lhes algo que não consigo definir, mas sei que ainda tenho muito a aprender.
É engraçado, pois sempre ouvi dizer que os sonhos não são coloridos, mas os meus são. Só as fotos neles é que são em preto e branco. As fotos dos meus sonhos, e as fotos que tiro quando estou desperto, produzindo a minha arte, quando me sinto vivo, mais vivo do que nunca.
As minhas fotos são em preto e branco, e talvez seja isso que deva mudar. Talvez seja esse o detalhe que vai me transformar num artista completo, pois eu gosto muito das cores.
Sobretudo do vermelho.
Eu chamo também, Rogério Mendes, de Florianópolis SC.
Parabéns, Ótimo trabalho.