por Rogério Mendes
E lá estava ele, sentado no chão da cozinha, ao lado daquele corpo sem vida que ficava cada vez mais e mais branco, enquanto o sangue viscoso escorria lentamente.
Mel, ele pensava. Quando era criança e ficava doente, sua mãe sempre lhe preparava um chá quente, tão quente que ele mal conseguia segurar a caneca, adoçava o chá com mel e obrigava-o a beber. Detestava o chá, detestava quando aquilo descia queimando por sua garganta, mas ficava fascinado com a maneira como o mel escorria para dentro da caneca.
Aquele sangue no chão escorria como mel. Preguiçoso. Quase como se não quisesse escorrer. Não fosse o cheiro, ele podia jurar que aquele corpo tivera mel nas veias.
Entretanto, não havia dúvidas. O cheiro frio e ferruginoso penetrava em suas narinas e impregnava todo o ambiente. Sangue. Sangue se espalhando pelo chão, vagarosamente, como um ser vivo, como se tivesse o propósito de tomar posse de todo o chão da cozinha. É incrível a quantidade de sangue que há dentro de uma pessoa, ele pensava. Não uma pessoa. Não mais. Porém, aquele corpo sem vida já fora uma pessoa, até bem poucos minutos atrás.
“Mostre-me”, ele disse. Ela não entendeu. “Mostre-me”, ele repetiu. Assustada, ela correu e pegou o telefone, mas ele não esperou que terminasse de discar. Arrancou o fio da parede, e ela gritou. Detestava quando elas gritavam, detestava quando ficavam histéricas, mas ficava fascinado com a maneira como elas arregalavam os olhos, quando ele lhes mostrava a faca. E agora, lá estava ela em sua mão. Brilhando, refletindo seu rosto, como um desses espelhos de parque de diversão onde tudo reflete errado. Viu um sorriso na faca. Seu sorriso. Distorcido. Errado. Contudo, talvez a faca mostrasse como ele realmente era. Talvez todos os espelhos estivessem errados, exceto aqueles dos parques de diversão e as facas. Já não sabia em quais espelhos confiar.
“Mostre-me seu medo”, ele disse baixinho, mas ela não ouviu. Seus olhos castanhos estavam bem abertos, fixos na faca, e ele gostava daquilo. Gostava de ver os olhos delas, castanhos, verdes ou quem sabe azuis, bem abertos, fixos. Olhos de medo. O medo mostrava quem elas realmente eram, mostrava suas verdadeiras faces. Ele se deliciava com o medo. Era como tomar sorvete num dia quente ou chocolate num dia frio, ou quem sabe viajar para um país estrangeiro, onde tudo é novo e bonito. O medo mostrava que elas tinham algo a perder, e isso lhe causava uma sensação muito boa, como se, naquele momento, quando elas estavam reduzidas aos seus instintos mais primários e só havia o medo entre eles, ele detivesse todo o poder do mundo em suas mãos. O poder sobre a vida e a morte. Naquele momento, ele era o senhor de todo o universo, ele era deus, e ficava fascinado com a maneira como elas o temiam.
Ele murmurou palavras desconexas, extasiado pelo prazer daquele momento, tonto de satisfação, e não se importou que ela não lhe prestasse atenção, desde que continuasse olhando para a faca, que cada vez mais chegava perto de seus olhos. E então, ela gritou, como sempre acontecia, e ele cortou-lhe a garganta, como sempre acontecia quando elas gritavam.
E com isso o medo se foi e o encanto acabou, e lá estava ele, sentado no chão da cozinha, ao lado daquele corpo sem vida que ficava cada vez mais e mais pálido, com olhos lassos, olhos baços, cinzentos. Olhos de morte.
Olhou novamente para a faca, e viu seus próprios olhos refletidos entre as gotas de sangue que escorriam. Espelhos de parque de diversão que mudavam de lugar. Espelhos vermelhos, viscosos, escorrendo como mel. Não havia medo lá. Não havia nada. Só olhos vazios.
Ótimo, como sempre…
E seu site está sendo divulgado…
Cru e conciso na melhor tradição de Albert Camus, Graciliano Ramos, Gabriel García Márquez e Fábio Vanzo. Pareceu-me estar lendo um post meu, só que bem melhorado. Parabéns (se bem que eu não esperava menos de você). Abrazzos!